#Girlbosses



"Again, don't waste your energy trying to educate or change opinions. Go 'Over! Under! Through!' and opinions will change organically when you're the boss. Or they don't. Who cares? 
Do your thing and don't care if they like it."
Tina Fey, Bossypants  




Este mês inicio a minha colaboração no projeto "Chapters & Scenes" da Mariana, autora do blogue It's ok. Escrever sobre livros, filmes ou séries é algo que me atrai bastante, mas o primeiro tema, confesso, fez-me alguma alergia.

Conheci o termo "girl boss" a partir de uma série da Netflix que me fez desistir a meio do primeiro episódio. Fico contente por não ter sido a única a quem o programa não agradou. A Vanity Fair reuniu as razões pelas quais Girl Boss, a série sobre o império "Nasty Gal" de Sophie Amoruso não vingou (nem na vida real, nem em streaming): "Nasty as the fictional Sophia is, the show wants us to shrug off her trespasses because she’s cute, and because she’s good at what she does. The problem, though, is that you can’t exactly be an asshole genius if you’re not a genius to begin with.”

Não consigo precisar se o termo precedeu à série ou se foi o contrário (tal como nunca me esclareceram quem veio primeiro, se a galinha, se o ovo), mas a verdade é que o conceito se espalhou e acabou por anular algumas das características negativas que o próprio artigo da Vanity Fair aponta. Surgiram novos exemplos de #girlbosses, miúdas com pinta, empreendedoras e auto-suficientes, que, como o nome indica, se mostraram mais habilidosas a conhecer e contornar o mercado do que os seus homólogos masculinos. O facto de terem conseguido vingar num meio banhado a testosterona explorando as suas capacidades e transformando o seu potencial em mais valias fez delas símbolos de sucesso, como se a primeira vitória residisse precisamente aí.

Será?

Tal como Amoruso, cujo império entrou em declínio - curiosamente em parte devido aos processos instaurados por antigas funcionárias que foram despedidas quando engravidaram... -, também a série foi cancelada logo no final da primeira temporada. Ainda não estará o mundo preparado para assistir aos sacrifícios e atalhos que as mulheres têm de fazer para vingar no mundo dos negócios (e que caso fossem perpetrados por homens seria mais um dia no escritório) ou simplesmente esta é mais uma receita para uma queda tipo Ícaro?

Vejamos o exemplo de Hillary Clinton: enquanto representou o papel da fiel esposa do antigo presidente norte-americano, o mundo tinha um lugar definido para ela; quando tentou competir na grande arena, foi penalizada por usar saias. Ou será que, no fundo, também ela não seria a candidata ideal para liderar o mundo livre, embora tenha um bilião de vezes mais capacidade para o fazer do que aquele macaco laranja? Opiniões políticas à parte, seria interessante aprofundar o debate de como os símbolos masculino/feminino continuam a ser manipulados para captar ou afastar simpatias.


O termo #girlboss contém em si dois conceitos que nos parecem à partida antitéticos: por um lado a feminilidade de uma menina, toda ela pompons e cor de rosa, incapaz de fazer mal a uma mosca; por outro a severidade e a autoridade de um chefe. "A culpa é de quem nos educou assim, num mundo de donzelas à espera que o seu príncipe as salve!", gritam as feministas. Embora seja fácil colocar a responsabilidade nos contos de fadas, a verdade é que o mundo não se faz nem muda apenas com ideias, mas sim com exemplos. É preciso apresentar alternativas em que as meninas possam mandar em algo mais do que na casa da Barbie e com sorte casar com um Ken que venha com oferta do descapotável.

Para além do péssimo exemplo que a série "Girlboss" nos trouxe, será possível encontrar nos livros, filmes ou televisão verdadeiros modelos em que a dicotomia menina/chefe não esteja sempre presente e seja repetida até à exaustão para angariar fervorosos apoiantes ou acérrimos opositores? Alguém terá conseguido explorar de maneira inteligente as áreas cinzentas e os interstícios de uma fórmula que repete os próprios conceitos que esta geração procura combater?

Quando pensei em quem tem sido para mim um modelo nos últimos anos, alguém que conseguiu no mesmo palco apresentar as vantagens e desvantagens de vingar neste meio, surgiu-me logo na mente Liz Lemon. Para quem não conhece, esta é a personagem principal da série 30 Rock, baseada na experiência de Tina Fey como actriz e escritora do Saturday Night Live. O ritmo alucinante na produção do programa e a dificuldade que Lemon demonstra em conciliar a vida privada (ou a ausência dela) dão o mote a 30 Rock, que esteve no ar sete temporadas e contou com a presença, entre outros, de Alec Baldwin. Este aparece como um mentor aparentemente bem sucedido, mas baseia-se numa paródia do homem de negócios republicano com um forte complexo de Édipo. Primeiro despreza Lemon e tudo o que ela representa, mas a pena que a sua situação lhe suscita motiva-o a  tentar salvar a pobre produtora do celibato, do sedentarismo e de uma vida de maus hábitos que minam o seu sucesso. Fá-lo começando por uma recomendação simples "Shoulders back, Lemon. You're not welcoming people to Castle Frankenstein." e terminando com um redondo "Not thinking is what makes America great." Curiosamente, no processo, ambos saem mais ricos e o que começou por ser uma mentoria transforma-se numa sólida e dessexuada amizade. 
Liz: Do you want a hug?
Jack: What is this? The Italian parliament? No thank you.

Em 2011, cinco anos depois de 30 Rock estrear, Tina Fey publicou a sua autobiografia, Bossypants. O mundo estava interessado em perceber como alcançara o sucesso na televisão e Fey contou-lhe, utilizando o ironia e o sarcasmo para expor a verdade (como aliás fez sempre). Parodiando a sua própria vida - que é para mim a única maneira suportável de nos mantermos mentalmente sãos - a autora mostra-nos como de adolescente introvertida se iniciou na improvisão e daí saltou catapultada como rainha dos geeks

"I've learned a lot over the past ten years about what it means to be the boss of people. (...) Contrary to what I believed as a little girl, being the boss almost never involves marching around, waving your arms, and chanting 'I am the boss! I am the boss!'"
Tina Fey, Bossypants  

Será difícil encontrar no percurso de Tina Fey algo que se assemelhe a uma #girlboss tradicional, a não ser que tomemos este conceito numa forma mais lata. Alguém que vai aprendendo com os erros, ajustando as suas capacidades ao meio envolvente, que sabe quando retroceder e deixar aqueles que trabalham consigo brilhar. Não obriga necessariamente a que se pendure e reforme os pompons cor de rosa, mas certamente que envolve abandonar ideias pré-concebidas do que o sucesso num meio competitivo significa. Nem todas podemos ter pinta - Fey tem uma cicatriz gigante na face e um sentido de moda completamente desatualizado - ou ser boa no que se faz e que isso apague todas as transgressões. Às vezes ser um bom líder implica fazer alianças com o "inimigo" - e nem sempre este nos aparece sob a forma de um Baldwin - e perceber que a resposta não se encontra em fórmulas pré-definidas de sucesso. Às vezes só olhando para trás conseguimos perceber o que resultou e o que poderíamos ter feito melhor. Mas sem dúvida que se o fizermos com um pouco de sentido de humor, a  viagem torna-se bastante mais fácil. 



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