Peter Pan.


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Conhecem a "síndrome de Peter Pan"? Apesar de não haver consenso científico acerca da veracidade deste transtorno, vamos concordar que se refere à dificuldade que sentimos em crescer. Alguns mais do que outros teimam em permanecer na redoma da infância, fugindo de responsabilidades e vivendo uma vida aparentemente mais leve. Consequentemente reagem às dificuldades e aos obstáculos de duas maneiras: fugindo deles ou delegando em terceiros a obrigação de os enfrentar. Adoptando sempre o caminho mais fácil, esta decisão carrega consigo mais desvantagens do que regalias a longo prazo. Aumentam-se as dependências, diminui-se a incapacidade em lidar com as dificuldades e as respostas aos problemas revelam-se desproporcionadas à dimensão dos mesmos. No entanto, esta "síndrome" não deve ser confundida com uma saudável atitude de curiosidade face à vida, de nos mostrarmos interessados em sair da nossa zona de conforto e de olhar o mundo com os olhos de uma criança.

[Não fosse a infância uma construção sócio-cultural, não universal e uma conquista de psicólogos, educadores e legisladores recente no tempo e esta conversa podia continuar por mais alguns parágrafos interessantes, mas não é esse o objetivo desta publicação.]

Em vários momentos da vida sentimos esta vontade de virar a cara aos problemas. Eu sinto muitas vezes de manhã a vontade de ficar mais uns minutos debaixo do edredão (sim, eu sou daquelas que dorme sempre tapada de inverno ou verão, não me julguem) e a inércia volta também à noite, quando sei que tenho compromissos pela manhã e não resisto a assistir a mais um episódio da minha série favorita. De manhã o ciclo repete-se e dão por mim a arrastar-me por volta das duas da tarde e a tentar compensar com um café a falta de descanso. Mas esta é uma daquelas infelicidades que não me impede de ter noção do equilíbrio precário entre o que eu quero fazer e o que eu tenho de fazer. Existem maneiras muito menos saudáveis de nos mantermos na infância e as consequências - aprendi eu depois de ultrapassada a barreira dos trinta e graças a muitas quedas (literais e metafóricas) - só as assimilamos depois de realmente passarmos por elas. E com isto refiro-me a absorver o bom e o mau.

Não deve haver melhor sensação do que conquistarmos algo por nós próprios. De aceitarmos um desafio, de sentirmos que não vamos conseguir ultrapassá-lo, de percebermos que as ferramentas que tínhamos ao nosso dispor para o enfrentar necessitam de ser trocadas ou afinadas, de nos tornarmos outro alguém no processo.

Consigo comparar essa sensação à de correr. Não deve haver nada mais libertador do que terminar uma corrida. Correr em si é péssimo. É desconfortável, doloroso, muitas vezes lento para que não seja imediatamente cansativo. Temos de encontrar o nosso ritmo, de perceber onde dói mais para compensar com o que dói menos, de aguentar quilómetro após quilómetro até alcançar a meta. Toda a gente que corre fá-lo por diferentes razões e não tenho a pretensão de escolher aqui uma ou a melhor. Há quem goste de estar sozinho com os seus pensamentos. Há aqueles para quem esta é uma boa altura para não pensar em nada. Há quem o faça para poder ouvir a sua música sossegado. Mas duvido que haja um único corredor que não adore a sensação da chegada. Colher finalmente os frutos tão dolorosamente conquistados. Aquela invasão de endorfinas no sangue. A sensação de obtermos o prémio desejado e de o merecermos.

Penso que muitas crianças que se mantêm infantis em adultos não devem ter passado por esta sensação. Privados do prazer de sacrificarem parte de si para conquistarem algo novo, esta sensação foi-lhes provavelmente retirada por pais hiper-protectores ou por escolas facilitadoras. Sem querer e com a melhor das intenções, parte da sua infância e do seu crescimento foi-lhes roubada por quem mais lhes queria bem. Poderão haver outras razões, certamente, mas vejo este padrão repetir-se. E vejo também a facilidade com que impedimos os outros de crescer ao longo da vida, sejam eles filhos ou não. Quando protegemos os amigos de uma relação desastrosa. Quando não os confrontamos com a consequências das suas acções. Quando tentamos compensar o que lhes falta, com as melhores intenções, tentando poupá-los a mais dissabores. 

Ultimamente tenho-me debatido muito com uma das maiores dúvidas que comanda a minha vida: "de boas intenções está o inferno cheio". Parece que a cada curva sou confrontada com os atalhos que com toda a boa vontade talharam por mim, mas também com aqueles que encurtei preocupada com terceiros. E eu sei melhor do que ninguém o quanto gosto de correr, de enfrentar um desafio, de conquistar aquela vitória sozinha que ninguém me tira. E sei também que ninguém pode correr por mim aqueles quilómetros e que não me está destinado correr os quilómetros por mais ninguém. Quanto muito posso apoiar, não posso emprestar as minhas pernas nem os meus pulmões. Posso aplaudir, mas não empurrar. Posso ajudar, mas não substituir. Não posso nem devo retirar aos outros o sofrimento porque isso será também retirar-lhes o poder de o ultrapassar, tal como tive eu de sofrer para ganhar novos pulmões e novas pernas que me permitem correr mais longe, mais tempo, melhor.  

Para algumas pessoas Peter Pan representa a morte (aliás, o autor J. M. Berrie criou-o com base na história do irmão que morreu num acidente aos 14 anos). Um menino que nunca envelhece, que voa pelos céus acompanhado de fadas que lhe sopram pós de perlimpimpim nos pés, que tem muitas aventuras das quais escapa miraculosamente. Talvez seja verdade que Peter Pan representa mais a morte do que a impossibilidade que alguns de nós desenvolvem em crescer e de enfrentar os problemas, privando-se assim das recompensas a longo prazo trocadas pelo prazer imediato. Porém, a verdade é que temos de deixar morrer uma parte de nós para que à outra seja permitido crescer. Ou então se calhar o Peter Pan nunca cresceu não por recear morrer, mas por ter medo de viver. 

"So the fact that I'm me and no one else is one of my greatest assets. Emotional hurt is the price a person has to pay in order to be independent." 


* Imagem retirada daqui.


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Comments

  1. Parece-me que já tens a questão bem resolvida. Nada se compara ao gosto e ao orgulho do "fui eu que consegui"
    Podemos não chegar tão depressa, se calhar até podemos nem chegar (dá sempre jeito conhecer uns atalhos ou as pessoas certas) mas não é isso que nos preenche
    Ps: esqueci-me de dizer que já li o livro do Murakami ;)
    obrigado, era delicioso.

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    1. concordo com o que escreveste, excepto na parte em que tenho a questão resolvida. acho que é uma questão de treino e que nem sempre resposta o meu primeiro instinto, mas certamente será a mais acertada. é brutal o livro, não é? *-*

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