Oh flor, deixa pôr.





Recentemente aconteceu-me um episódio bastante desagradável. Fiquei muito incomodada, como fico sempre que estas coisas acontecem, e dei por mim a pensar: “Mas afinal de contas, quantas vezes já passei eu pelo mesmo?”

Relato-vos o sucedido. Como sempre faço, vesti o equipamento, calcei os ténis, enfiei os auscultadores nos ouvidos e saí para correr. Depois de um breve aquecimento a passo célere rua abaixo, encontrei o meu ritmo de corrida confortável.

Sou uma rapariga abastada e isso calhou-me nos genes. Não me refiro a dinheiro de família, mas sim ao peito grande. A minha mãe tinha, a minha avó não, mas curiosamente a minha madrasta também tem. Eu sou farinha do mesmo saco. Como gosto de correr, para prevenir levar com uma mama na testa, invisto sempre em bons soutiens de desporto. E para não despertar olhares a que ainda não me habituei desde que no natal dos meus 10 anos fui brindada com o primeiro soutien, escolho sempre roupa mais larga que deixe pouco espaço à imaginação.

A verdade é que mantenho uma relação de amor-ódio com esta minha característica e o poder que tem há 24 anos sobre a maneira como vejo o meu corpo e como os outros me vêem a mim. Habituei-me a pensar que a culpa seria minha por despertar certas miradas, nem todas bem disfarçadas. Os comentários também têm sido prolixos, uns mais originais do que outros. Certa vez entrei num autocarro e um passageiro que se encontrava no cimo das escadas comentou: “Mas que maminhas tão bonitas.” Eu respondi “Obrigada” porque ele estava cheio de razão. Mas, verdade seja dita, ninguém lhe perguntou nada.

Nesse dia saímos eu e as minhas duas amigas correndo pelas ruas de Lisboa. Continuei rente à margem do Tejo até chegar ao pilar da ponte, onde comecei a abrandar o passo. Estava pronta a reduzir para marcha quando a voz de um homem mais velho, de olhos postos no meu peito, se sobrepôs à minha música e lançou um comentário trespassando o meu espaço pessoal como uma faca. 

“Vai à merda!”, gritei. Já não sou a menina bem comportada que aos vinte anos agradecia piropos nos transportes públicos porque não sabia que mais fazer nem queria perder o lugar sentada. Este homem não gostou e respondeu-me num insulto também. Eu acelerei e só parei uns metros mais à frente. Espreitei por cima do ombro receando que o homem me tivesse seguido. É que, façamos as contas, um estalo ainda dói mais do que um piropo. E depois pensei como estava desprotegida.

Num país que recentemente criminalizou este tipo de comentários, punindo os infractores até 3 anos de prisão, continua a ser difícil que isto pare de acontecer. Talvez porque só se o piropo tiver um cariz sexual ou se for convite a algo. E prová-lo? Havia de ser bonito. Tal como se pode ler no artigo 170º do Código Penal português, naquele momento senti medo e a minha liberdade posta em causa. Mas não pude fazer nada acerca disso. Sabem, senhores políticos e juristas, eu há 24 anos que oiço as mesmas coisas e este aditamento à lei não demoveu ninguém. De patrões com as mãozinhas leves, de fisioterapeutas que em consulta me perguntam se já durmo com o meu namorado, de outras mulheres que me questionam se o meu marido me deixa usar saias curtas… A lei não mudou nada.

E pior do que isto é queixar-me a amigos meus e eles responderem-me “Se eu estivesse contigo nada disso tinha acontecido.” Quando saio para correr quero desligar da realidade, não chamar à atenção com guarda costas. Não são as mulheres que devem ter mais cuidado quando saem para correr sozinhas em sítios mais escondidos ou de noite. Por amor de deus, eram 10 da manhã numa terça-feira à beira rio!

O problema está nesta mentalidade, nesta desculpa cultural, que utiliza o argumento de que a criminalização dos piropos vai matar o jogo da sedução e que a hiper-vigilância da sociedade nos vai conduzir a um pesadelo de Foucault ou de Orwell. 

Talvez nesta geração a lei não chegue a dar-nos as soluções que precisamos. Mas se não ela, alguém que me explique, como se eu fosse muito burra, porque raio não consigo sair para correr sem pensar duas vezes que comentários desta vez irei ouvir.

Este artigo apareceu primeiro no site A Montra / The Window, com o qual colaboro mensalmente. 
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Comments

  1. Gostava de poder dizer que a situação me choca e que é uma raridade tais coisas acontecerem, mas, infelizmente, não vai ser para breve uma mulher poder sair sozinha à rua sem recear o que lhe pode acontecer. Embora no dia-a-dia estas coisas não me assaltem os pensamentos e me mova de um lugar para o outro de forma descontraída, a verdade é que recordo sempre o dia em que estava a correr e, DO NADA, sinto um apalpão no rabo, sendo que, quando em virei para trás, vi o homem a fugir de forma rápida, tendo só tempo para protestar em voz alto um insulto - mais ligeiro que o teu, mas ainda assim insulto. É terrível que isto aconteça. Por isso, eu defendo que estes assuntos merecem ainda mais foco e atenção. Porque, de que nos vale criar mil normas e leis se a insegurança e desconforto continua por aí?
    Lamento que te tenha acontecido, mas espero que continues a correr eheh :)

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    1. sim, claro que continuo a correr. sozinha ou acompanhada, acredito que não é por uma experiência menos positiva que deva desistir. assim eles ganhavam sempre. o que me custa de todos os relatos que surgiram após esta minha publicação é que a minha história se repita nas vidas de tantas outras mulheres (e acredito que de muitos homens também) sem que se veja abrandamento, apesar da mudança legislativa.

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  2. Só não me identifico com a corrida, de resto... sei bem do que falas. :P
    Beijinhos, Joana!

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    1. ehehe gosto do pormenor da ausência da corrida ;)

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  3. Acho que não há uma mulher que não leve com esses piropos ordinários. Eu própria tenho um historial desde os 13 anos de tentativa de violação, aos 16 anos primeiro emprego patrão a tentar tocar-me e por aí fora. Vi muita coisa que não desejo a nenhuma menina ver, agora com os meus 44 anos e 1,51 de altura sou bem grande e que nenhum depravado me diga seja o que for que eu viro o Hulk. Pagam todos por estes anos de molestação que sofri, inclusive familiares. Não perdoo a ninguém jamais esse tipo de comentário. bjs

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    1. lamento imenso que essas situações se tenham passado contigo e que te tenham obrigado a defenderes-te sozinha tantas vezes. é realmente incrível a quantidade de histórias que ficam por contar e que, mesmo que muitas pareçam inocentes ou que tenham alguma graça, não deveriam jamais acontecer porque não há maneira de perceber o alcance que terão na vida de quem por elas passa. também não tolero qualquer comentário, sinto que mesmo um piropo já passa do limite quando eu não lhe acho graça e sinto a minha privacidade posta em causa. bjs

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