O peso, as emoções e um impredictable raspberry cake #15


Isto da alimentação saudável se ter tornado num tema popular na internet e, mais concretamente, em vários blogues, significa também que alguns conceitos podem ficar deturpados pelo caminho. E nesse sentido faço sempre um mea culpa porque também por aqui ando, com a diferença de que me esforço por descontruir, discutir e reconstruir os mesmo conceitos que alimentam esta indústria. Tento assim afastar-me daqueles blogues que, embora à partida não o pareça, se posicionam num extremo diametralmente oposto àquele em que me encontro. Porém, a comunicação por vezes é confusa e sinto sempre uma enorme responsabilidade no que aqui escrevo e divulgo. Não querendo promover mitos nem enganos, vamos lá recapitular tudo outra vez... 

A participação de hoje fala-nos de fome emocional, da perda de 45kg e de uma mudança de rotinas. Adoro a ideia de que a Ana Luísa o tenha feito para ganhar saúde. Odiaria que o seu testemunho mostrasse que sempre foi obcecada com a ideia de ser magra e que tenha feito tudo ao seu alcance para o conseguir. Mas o percurso da Ana Luísa também ele foi feito de altos e baixos e é aí que o que escrevemos nos nossos blogues deve ser tido em consideração. Nós não sabemos quem está do outro lado a ler. Não sabemos que tipo de relação essas pessoas têm com a comida. Se alguém como eu assume que se alimenta essencialmente de alimentos vegetais, quem está do outro lado pode perceber que se trata de aipos e cenouras, nada mais. Só que não! E fome emocional é algo sério. Aliás, nem sequer é fome, é outro sentimento qualquer que aparece mascarado na nossa consciência à procura do conforto dos alimentos e que faz com que a comida se torne o problema, quando a COMIDA NÃO É PROBLEMA NENHUM. 

Eu conheci uma pessoa que foi internada compulsivamente nos cuidados psiquiátricos do Hospital de Santa Maria porque o seu baixo peso assustou pais e psicólogos; aliás, o peso como os pêlos que lhe começaram a crescer nas costas (um mecanismo de protecção desenvolvido pelo próprio corpo que lhe permite manter a temperatura quando o peso se encontra demasiado baixo). Conheci outra que teve o bom senso de pedir ajuda, insistindo que a internassem numa clínica vocacionada para os transtornos alimentares, que saiu sabendo que o seu medo de engordar era na realidade o medo de crescer e que conseguiu seguir com a sua vida, com direito à visita ocasional a reuniões ao abrigo do anonimato sempre que sentisse a orientação perder-se no caminho conturbado que é a vida. Conheci outra cuja família preferiu manter uma imagem de que "aqui está tudo bem, nós somos todos perfeitos" e não disponibilizou o apoio necessário à filha que reclamava o seu lugar nas relações familiares pela atenção que o seu corpo (demasiado) magro atraía, olhando todos ao mesmo tempo para o lado quando ela se alimentava apenas de meia barrita substituta de refeição ao almoço acompanhada de uma aula no Holmes Place.

Mas também conheço muitas mulheres - arrisco-me a dizer que todas... - que são constantemente bombardeadas com anúncios a promover a perda de peso, dietas milagrosas, que são levadas a crer que são "viciadas em comida" (como se ser gorda fosse defeito de carácter e os alimentos comparáveis a drogas pesadas), que dividem alimentos em limpos/sujos, saudáveis/gordices. Que por mais bonitas que sejam se imaginam sempre com menos 5 ou 10kg, que acham que só serão merecedoras do amor que já recebem se finalmente couberem numas calças 34, que se exercitam para poder comer mais uma fatia de bolo, que pensam que este ou aquele alimento faz mal e o evitam a qualquer custo, que agora vão chegar ao verão todas complexadas porque "oh não consegui novamente perder aqueles quilos que queria..." e por isso em vez de uma bola de Berlim na praia comem 5 porque "perdida por 100...". Mulheres que acreditam que a capacidade de cumprir com dietas restritivas corresponde ao valor da sua personalidade, que acham que ser gordo é sinal de falta de saúde... Oh meu deus, é uma lista que nunca mais acaba!!!

Eu não sou nutricionista, psicóloga, especialista em comportamento alimentar, mas gosto de comida. Gosto daquela que me nutre, me faz sentir com energia, que não vem em embalagens e que compro a quem a produz. Gosto de comida com história, gosto de histórias sobre comida e gosto de escrever sobre ela. Gosto de encher o frigorífico de frescos que fazem refeições coloridas. De comer em quantidade e de me sentir saciada, de que estes sejam os meus hábitos e as minhas rotinas. Esta para mim é a definição de saúde. Também gosto de fazer exercício para desfazer o stress, de correr porque me tornou numa melhor pessoa, de aprender a reordenar os meus pensamentos e saber que sou responsável pela minha felicidade. Isto também é saúde. Gosto de me rodear de pessoas que me desafiem e inspirem (que é diferente da moda do "agora somos todas poderosas e queremos que a nossa vida seja inspiração para os outros": isso é histriónico e o bem estar agora é a nova ditadura... mas lá chegaremos também! :D). Gosto de me afastar de gente e de situações que não me acrescentam nada, gosto de dizer não, gosto que o humor seja o meu mecanismo de defesa mais aperfeiçoado. 

A saúde não vem num batido, num superalimento nem está na vida que os outros expõem online. A saúde somos nós que a construímos, respeitando o nosso corpo e a nossa mente, comendo comida a sério, sabendo pedir ajuda quando é necessário e cultivando relações que nos fazem felizes. Saúde é saber parar, pedir desculpa e deixar ir. "Let it go", como diz a Elsa. Mas eu não sendo profissional da área, sei dar a voz a quem o é e POR FAVOR não deixem de ver este vídeo do Não sou exposição: Compulsão, vício, corpo e mulheres. 

E entretanto espreitem estes bolinhos de framboesa que a Ana Luísa do U-choose nos trouxe hoje e conheçam a sua história para ganhar mais saúde, bem como todos os seus altos e baixos.


Se quiserem também participar neste desafio, poderão fazê-lo. Enviem-me um email para lim.edition2012@gmail.com e guardo-vos um espaço no calendário. Se reproduzirem nas vossas cozinhas alguma das propostas aqui apresentadas, utilizem o #desafioreceitasaudável e partilhem connosco as vossas versões e interpretações para que todos possamos contribuir para um estilo de vida mais saudável que passa pela comida, mas não se esgota nela

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