Este nunca será um blogue de lifestyle, mas este é um tabbouleh libanês.



Dificilmente conseguiria ter um blogue de lifestyle. A minha vida é demasiado aborrecida para isso. Por norma acordo cedo para dar a insulina ao Che, passo demasiado tempo a espreitar as vidas dos outros nas redes sociais, irrito-me com algum escândalo mais popularucho que passa na SIC Notícias enquanto tomo o pequeno almoço e depois tento concentrar-me para escrever um pouco mais da minha tese. Os dias passam-se assim, com intervalos para tratar do gato diabético, para experimentar mais uma receita ou fazendo exercício. Estes últimos meses dedicados a este projecto megalómano em que me meti há anos atrás têm sido de grande solidão, mas muita dela selectiva. Se em parte necessito do sossego para trabalhar, por outro lado tenho sempre a desculpa do doutoramento para me esquivar a planos menos apelativos. Não o faço por maldade nem estou necessariamente a mentir, mas a verdade é que a minha lista de prioridades tem sido trabalhada no sentido de me dedicar ao que realmente interessa e perder o mínimo de tempo possível com o que não faz já sentido para mim. Quando tento ser um pouco menos anti-social e perco mais do que 5 minutos a decidir se devo sair do meu casulo, aplico um filtro que desenvolvi: "Quero estar aqui, neste local e com esta pessoa, ou há um livro que preferia estar neste momento a ler?". Eu sei, sou uma besta. Mas a minha biblioteca a crescer a olhos vistos discorda de vocês.

Por estas e por outras é que não poderia ter um blogue de lifestyle. Os meus dias sempre iguais, a mesma roupa de andar por casa cheia de pêlos de gato e as corridas à beira rio para espairecer as ideias não compõem fotografias bonitas. Quer dizer, as corridas até dão um enquadramento simpático, mas aborrece-me parar para fotografar o por do sol. Acabo por mostrar só os ténis e os quilómetros corridos, como se me estivesse a gabar.


Ao fim‑de‑semana ainda tento fazer alguma coisa mais interessante com o meu marido, daí algumas fotografias de brunch que aparecem no meu instagram. Mas verdade seja dita, eu acordo sempre com fome e tento ao sábado recuperar algumas das horas de sono que perdi durante a semana, por isso a verdade é que sai mais em conta ir ao brunch acordando ao meio dia, do que estou propriamente a definir um estatuto fashion ou a concorrer para o lifestyle. 

O que vale é que parece que o tormento está a chegar ao fim à medida que as páginas se escrevem mais depressa e as ideias estão mais estruturadas. Basta saber se quando chegar a hora vou querer prescindir da vida que me preenche, para optar pela vida que os outros escolheram para mim. Ainda tenho tempo para decidir se deixo crescer a barba, compro um cajado e me mudo para uma gruta ou se pinto os cabelos brancos e faço de conta que o meu CV não é combustível para as estações de reciclagem.

Esta receita que vêem abaixo é de um tabbouleh libanês que me lembrei de experimentar fazer em casa, depois de várias vezes o ter comido num dos restaurantes que mais gosto, o Fenícios na Rua do Conde Redondo. Quando lá vamos pedimos sempre uma Mezza vegetariana, cheia de húmus, tabbouleh, pão sírio, falafel, lebneh e baba ganoush (acho que não me esqueci de nada). E como o desafio deste mês do site Nutrição Feminina pedia uma salada fresca para levar na marmita, achei que ficariam muito bem servidos com este tabbouleh.

Tabbouleh libanês

~ Ingredientes ~

 receita adaptada de NYT Cooking

1/4 cup bulgur
sumo de 2 limões 
1 dente de alho pequeno, picado
1 ramo grande de salsa, picada
folhas de hortelã, picadas
2 tomates, cortados aos cubos
1/2 cebola roxa, picada
sal
1/4 cup azeite

Começar por hidratar o bulgur numa taça de vidro grande, com água. Deixar que absorva durante cerca de 1h. Adicionar o sumo dos limões e hidratar mais um pouco enquanto se preparam os restantes ingredientes. Juntar tudo numa taça grande, excepto o azeite, e levar ao frigorifico mais umas horas (ou durante a noite). Antes de servir adicionar o azeite e rectificar os temperos.


Tempo de preparação: 1h15m
Dificuldade: fácil
Serve: 3

Comments

  1. Tão bem que eu te compreendo. Fotografamos os gatos e a comida e nunca teremos blogues de sucesso astronómico e que nos sustentem. O meu marido diz-me sempre "não devias ter acabado o blogue" podia ser um grande sucesso diz ele!! Mas como, a falar do doutoramento e agora do pós-doc?! E a falar dos gatos e dos cães? Isso não vende. O que vende são as vidas perfeitas que ninguém tem, mas que as redes sociais obrigam a que se tenha.
    Estar em casa com pelos de gato não é fashion isso é facto, mas nos bons momentos é mesmo muito bom :)

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    1. Acho que para uma pessoa viver única e exclusivamente do seu blogue - ou ter o que chamas um blogue de sucesso - tem de prescindir de alguns pressupostos, entre eles a privacidade. Mesmo que queiras ser o oposto de quem expõe uma vida perfeita, estás a promover uma suposta autenticidade que terá pouco de real, que é produzida, recortada e exposta como verdade absoluta. Tenho algumas reticências em relação a isso, mas há quem consiga separar bem os campos e se preocupe infinitamente menos do que eu com essas questões. E também me parece que algumas pessoas entram em compromissos com os quais não me identifico. Seja como for, nunca digas nunca, não é? Desde que não me transforme em algo que não me orgulhe, sei lá o dia de amanhã.
      Vidas como as nossas não vendem, não são perfeitas, não são fotografas por profissionais... mas 1000 vezes isto a sorrisos falsos, autenticidades produzidas e faltas de noção profundas do que é o bom senso. Mesmo algumas pessoas que vejo actualmente promoverem um "regresso às origens", se é que lhe posso chamar isso, estão a correr atrás de uma moda. Quando a maré mudar, elas mudam também. ;) Seja como for, fechava já hoje o blogue em troca de uma carreira de investigação, desde que não nos moldes como se faz cá em Portugal. Eu mantenho o blogue porque gosto de escrever, gosto de cozinhar e é algo que consigo conciliar com a minha actividade profissional. Um dia em que isso deixe de fazer sentido, o que o blogue me traz não paga a renda e cozinhar é algo que faço todos os dias com prazer. Não vou prescindir dos meus valores por uma popularidade efémera.
      Beijinho

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  2. Compreendo perfeitamente!
    Em relação à receita,....maravilha,...Beijinhos,
    Espero por ti em:
    strawberrycandymoreira.blogspot.pt
    http://www.facebook.com/omeurefugioculinario
    https://www.instagram.com/marysolianimoreira/

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  3. LOLOLOL, somos duas! Já tenho pensado tantas vezes nessa questão! Imagino a minha vida num blog de lifestyle... sai de casa, apanha o metro, o barco, o autocarro, trabalha, volta para casa ... por o meio faz ballet (podia fotografar as sapatilhas de pontas, fica sempre bem)... que emoção!
    Mas são escolhas, não me arrependo, por isso também selecciono muito bem os momentos sociais ;)
    Não tenho muito o hábito de comer bulgur, mas parece ser muito bom nesta altura do ano
    Ps. Fiquei muito curiosa com esse restaurante

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    1. Olha que até ficava muito lifestylish a fotografia das sapatilhas de pontas, um por de sol visto do barco para a outra margem, ... ;)
      Eu gosto de bulgur, mas geralmente até o cozo. Até já usei em papas de pequeno almoço e fica bom, crocante! Neste caso foi só hidratar, é mesmo uma óptima solução fresca para quem anda com a marmita atrás no verão.
      Temos de combinar um jantar nesse restaurante! Acho que ias adorar, tem imensas opções vegetarianas.
      Beijinho

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