sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

Correr à chuva e uma sopa doce para aquecer.



Sejamos realistas, está um frio do caraças. É nestas alturas que dou graças pelo ar condicionado que mandámos instalar cá em casa, pelas botijas de água quente e pelo calor dos gatos no meu colo. Vou ser-vos sincera, eu adoro o frio quase tanto quanto odeio o calor. As canecas de chá quentes nas mãos. Os sobretudos e os cachecóis. Os gorros a tapar as orelhas. As sopas e os ensopados. E se os dias de frio vierem acompanhados deste sol magnífico que banha Lisboa, melhor ainda. Podemos dar longos passeios que nos permitem aquecer corpo e alma. 

Humidade é que dispenso. Parece que esta se entranha no bom humor das pessoas. Há inevitavelmente mais trânsito, acidentes e falta de paciência. Ou muito me engano ou em dias de chuva registam-se mais ataques cardíacos. O cinzento da atmosfera imiscui-se nas células e corre pela linfa destes seres humanos tão desenraizados do seu meio natural. Escondem-se nas suas casas, escritórios, automóveis. Não sabem dançar na chuva. Ou correr, como me aconteceu uma vez em que caiu uma carga de água durante uma das minhas corridas matinais e cheguei a casa com roupa e alma a pingar, mas revigorada. Nas ruas trotei rapidamente por indivíduos espantados e resguardados em toldos que os protegiam da chuva enquanto eu seguia o meu caminho, fresca como uma alface à chuva. Muito bom, recomendo. 

Se forem dos que preferem ficar por casa em dias de chuva - eu também prefiro, não vou ser tola e garantir-vos que aos primeiros pingos calço os ténis e saio a correr como uma gazela -, sugiro que experimentem esta receita. Adoro assar os legumes antes de os usar na sopa. O seu sabor fica acentuado, a sopa muito mais cremosa e, com o tempero adequado, não há mesmo como falhar. Desta vez quis experimentar uma mistura de especiarias que andava desejosa de usar desde o Halloween, quando um amigo americano me trouxe allspice dos Estados Unidos. Eu sou daquelas pessoas sem lata nenhuma que quando alguém vai viajar pede especiarias ou qualquer outro ingrediente para testar receitas. Uma vez levei com um "eu depois levo-te ao Martim Moniz" de um colega que esteve na Índia, mas fora isso tem corrido bem e viajo um pouco com eles sempre que me trazem algo para experimentar.

Para além do sabor adocicado e apimentado que esta mistura de especiarias confere à sopa e que fica absolutamente divinal (quem é esperta em usar os temperos das tartes na sopa, quem é? ahá!), não desperdicem as pevides da abóbora. Estas são muito nutritivas e não merecem acabar no caixote do lixo. Podem ser salpicadas nos pratos desta sopa ainda quente ou guardados para um snack saciante a qualquer hora do dia. E, como sempre, variando nos temperos, obtêm resultados surpreendentes. 

Se quiserem podem também consultar esta receita no site Nutrição Feminina.

Pumpkin Pie Soup


~ Ingredientes ~

240 cebola, descascada e cortada em gomos
200g de nabo, descascado e cortado em gomos
190g de chuchu, descascado e cortado em gomos
800g de abóbora butternut, descascada e cortada em gomos (reservar as sementes)
4 colheres de sopa de azeite
1 colher de café de sal
1/2 colher de sopa de pumpkin pie spice*

Ligar o forno nos 180º. Colocar todos os ingredientes num pirex, envolver bem nas especiarias e azeite e levar a assar cerca de uma hora. Lavar bem as sementes da abóbora e secá-las com um papel de cozinha. Colocá-las num tabuleiro largo de forno sobre papel vegetal, temperar com uma pitada de sal e pimenta preta e um fio de azeite. Assar na parte debaixo do forno até que estejam estaladiças.  Reservar e guardar num frasco bem fechado quando arrefecerem para outras utilizações. Retirar os legumes da sopa do forno e colocá-los numa panela grande. Ferver água (uso um fervedor elétrico) e colocá-la na panela, tapando os ingredientes. Deixar que ferva novamente e desligar o lume. Passar com uma varinha mágica, rectificar temperos e acrescentar mais água a ferver se necessário. Ao servir polvilhar com as sementes de abóbora crocantes.


*Mistura de especiarias adaptada do site Betty Crocker

3 colheres de sopa de canela moída
2 colheres de chá de gengibre moído
2 colheres de chá de noz moscada moída
1 colher de chá de cravinho (reduzi a dose recomendada porque não sou fã do sabor do cravinho, embora na mistura passe despercebido)
1 1/2 colher de chá de allspice moído (para quem não costuma ter esta especiaria em casa e não conseguir encontrá-la à venda - sugiro lojas de produtos importados, como a Glood - pode omitir da mistura ou adaptá-la como sugere esta receita, que basicamente reforça as quantidades das outra especiarias já presentes)

Tempo de preparação: 90m
Dificuldade: médio
Serve 8

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terça-feira, 10 de janeiro de 2017

Desafio receita saudável 2.




Daqui a pouco tempo celebramos o terceiro aniversário do primeiro Desafio Receita Saudável e não há maneira melhor do que revivermos as alegrias que este passatempo nos trouxe do que realizando outro, não vos parece?!

Porém, desde Abril de 2014 que muita coisa mudou e este desafio vai reflectir precisamente essa mudança. Para já vamos tornar a definição de "saudável" num conceito mais abrangente, já que este não é uma camisola tamanho único tipo "one size fits all". O que eu considero saudável pode não ser o que a vizinha do lado valoriza. Primeiro somos pessoas diferentes, com diferentes organismos que reagem de maneiras distintas aos estímulos, sejam eles físicos ou psicológicos. Depois, há um grande grau de subjectividade no que eu considero que me faz bem a mim e no que ela valoriza por seu lado. Para mim evitar o consumo de carne pode ter consequências extremamente benéficas - sinto-me mais leve, com mais energia, a minha consciência fica mais tranquila sabendo que me estou a abstrair de causar sofrimento aos animais e isso reflecte-se na maneira como encaro aquela refeição... -, mas para ela estar um mês sem tocar em álcool pode ser a resposta para reajustar as suas prioridades. Há quem jure a pés juntos que os sumos verdes lhe dão energia, já eu tenho em consideração algumas regras antes de preparar um smoothie, senão já sei que a coisa corre mal. Há um sem fim de variações e de interpretações consoante as características fisiológicas de cada um e a nossa história individual, mas há também constantes que podemos identificar que, apesar das variações, não retiram a especificidade de cada experiência.

Quero que atentem bem numa premissa para este desafio. O objectivo não passa por criar uma parada de receitas sem açúcar, sem glúten, sem ingredientes de origem animal, mas se a vossa noção de saudável passar por isso, tudo certo por mim. Justifiquem-no com uma história, um apontamento divertido. Ou então contem-me como um bolo tradicional, uma receita de família que aprenderam a fazer na cozinha das vossas avós, vos faz sentir feliz. E se essa receita levar farinha e açúcar branco? Bom, não é de todo o ideal, mas certamente que uma fatia não fará mal. E as memórias que esta vos traz... não há quilos de farinha integral no mundo que substituam as saudades que eu tenho de fazer bolos com a minha Avó, de ver as suas mãos cheias de rugas ensinar-me com amor como se alimenta e constrói uma família. 

Vamos reflectir de uma maneira consciente no que nos nutre, corpo e mente. Vamos saborear e agradecer cada uma das receitas que trouxerem para a segunda edição deste desafio relacionando com o modo como cada um, à sua maneira única, individual e particular se alimenta de uma maneira saudável. Não quero que façam uma receita de propósito com ingredientes XPTO para deixar todos os restantes participantes de boca aberta. Para mim, menos é mais. Às vezes complicamos muito e deixamos que alguma ansiedade desnecessária entre nas nossas cozinhas e já se sabe - isso não é nada saudável. Mas se me explicarem como é que um investimento num pacote de maca ou açaí vos faz sentir mais conectados com a vossa saúde, encantada. 

Peço-vos apenas que fujam de ingredientes demasiado processados e gorduras hidrogenadas. O açúcar também é secundário, se conseguirem encontrar alternativas mais saudáveis. É que ninguém precisa disso, não alimenta verdadeiramente e deixa-nos a todos cheios, pesados e maldispostos. Em última instância retira-nos qualidade de vida e não nos nutre nem por fora, nem por dentro. 

Por outro lado, há tantas atitudes e ingredientes que correm a internet e são apresentados como saudáveis dos quais eu fujo a pés juntos que gostava muito de conhecer o que é que para cada um de vós é positivo. Será que contar calorias, viver em restrição, exagerar no exercício físico e fugir de tudo o que possa ser considerado "pouco saudável" é a solução? Inspirem-se num hábito alimentar recentemente adquirido e que vos faz olhar para a alimentação - ou para a vida no geral - de maneira mais positiva. Como, por exemplo, acordar mais cedo para poder ter tempo de fazer umas deliciosas panquecas ou tomar o pequeno almoço sem pressas. Começaram a correr e descobriram que alimentos melhoram a vossa performance? Decidiram plantar a vossa horta na varanda e gostariam de me mostrar a primeira receita com uns débeis pimentos da primeira colheita que vos deixam super orgulhosos? E em que maneira é que esse comportamento pode ser considerado saudável? Como é que a procura por uma alimentação consciente impactou a vossa rotina diária? Alinham em dietas ou preferem investir na reeducação alimentar? Têm um blogue mas nunca se aventuraram a publicar uma receita? Participem! Contem-me tudo!!

Como podem ver, há 1001 maneiras de abordar este desafio. Sejam criativos e inspirem-se na edição anterior quando enviarem as vossas participações. O desafio começa a 1 de Fevereiro com a minha participação (e a minha noção de saudável) e já temos inscrições até Março, sendo que sai uma receita a cada quarta feira: a introdução aqui, a receita e a respectiva história no blogue convidado. No entanto se quiserem participar ainda vão a tempo! Enviem um email para lim.edition2012@gmail.com ou deixem um comentário embaixo para vos informar do calendário ou para tirar dúvidas. Podem participar com o vosso blogue, em nome individual, com a vossa conta de instagram... Partilhem esta publicação para reunirmos o máximo de interessados em participar e podermos todos aprender uns com os outros.

Tal como na primeira edição, não há vencedores nem vencidos, não há prémios em parceria com patrocinadores nem obrigação de fazerem like seja onde for. Vamos conduzir este desafio numa lógica de economia de partilha, em que cada um participa com o seu conhecimento e ganhamos todos com isso. Uma espécie de Uber das saladas, se preferirem. 

Então, estão todos a postos?!





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quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

Superalimentos e os Heróis Esquecidos.




Muito ouvimos falar sobre superalimentos. Estes alcançaram o estatuto de estrelas em pouco tempo, ganhando quase tanto protagonismo na internet como as selfies das Kardashian (de qualquer uma das manas, não sejamos tendenciosos). 

Mas o que são mesmo superalimentos? Na página 5 do seu livro Superfood Kitchen, Julie Morris informa-nos que o termo “superfood” apareceu pela primeira vez em 1915 no Oxford English Dictionary referindo-se a qualquer alimento considerado especialmente nutritivo e benéfico para a saúde. A autora, cuja carreira se tem destacado por privilegiar superalimentos na sua culinária, qualifica-os como sendo todos aqueles que se destacam pela sua elevada densidade nutricional, mas também pela prevalência de fitoquímicos e antioxidantes na sua composição. 


Estes superalimentos são ainda funcionais, na medida em que têm algum tipo de utilidade positiva no nosso organismo (ao contrário de outros que mais não são do que recipientes de calorias vazias… sim Coca Cola, estou a falar contigo!!). Os superalimentos conseguem também reequilibrar o pH do nosso organismo - muitas vezes sobrecarregado com alimentos processados, açúcares e gorduras nocivas - contribuindo assim para a sua alcalinização.

Considerando este perfil faz sentido que quem favoreça os superalimentos conte nutrientes e não calorias. Só por si isto já é extremamente benéfico, na medida em que evita que nos transformemos em neuróticos sempre de calculadora na mão contabilizando quantas horas devemos perder no ginásio para “queimar” um bolo de arroz.


Nas prateleiras dos supermercados os superalimentos podem ser identificados facilmente. São aqueles com os nomes mais exóticos e, curiosamente, também os mais caros: chia, goji berry, açaí, kale, maca… Mas por vezes esta nossa fixação com o exotismo leva-nos a esquecer outros alimentos que sempre pudemos encontrar nessas mesmas prateleiras e com elevados benefícios para a nossa saúde, embora os coitados agora se encontrem timidamente escondidos mais lá atrás. O feijão, o grão de bico, o agrião… todos eles esperando a sua vez para ser escolhidos e considerando seriamente investir num rebranding para que se tornem novamente sexy aos olhos de consumidores, nutricionistas e bloggers de culinária.

Não me entendam mal, por favor! A kale continua a ser uma bomba no que diz respeito a benefícios para a nossa saúde e densidade nutricional: um índice glicémico bastante baixo, um arraial de vitaminas, minerais e fibras que nunca mais acaba. Por isso quis nesta receita combiná-la com um dos meus ingredientes favoritos - o grão de bico - não só porque este é extremamente denso em macro e micronutrientes, como é riquíssimo em triptofano, um aminoácido essencial ao nosso organismo responsável pelo nosso bem estar e por um sistema nervoso equilibrado e, no fundo, feliz.

E se há algo que me faz sorrir é comer bem.


Kale Falafel com Molho de Caju


Molho de caju

~ Ingredientes ~

1/2 cup de caju, demolhados durante a noite
1/2 cup de água
1 colher de chá de mostarda de Dijon
1 colher de chá de levedura de cerveja 
sal

Colocar todos os ingredientes num processador potente até que estejam bem triturados e reduzidos a molho. 


Kale falafel 

~ Ingredientes ~

1 cup de grão de bico, cozido
60g de folhas de kale, lavadas
1/2 colher de sopa de tahini branco
2 colheres de sopa de salsa, picada
2 colheres de sopa de coentros, picados
2 colheres de sopa de linhaça moída + 5 colheres de sopa de água
sal
pimenta
raspa de 1 limão
1 colher de café de turmerico
1 colher de café de cominhos, moídos
2 dentes de algo
5 colheres de sopa de sementes de sésamo

Começar por preparar os “ovos” colocando a linhaça moída num recipiente pequeno com a água. Deixar que hidratem cerca de 10 minutos. Colocar todos os ingredientes - excepto as sementes de sésamo - num processador e triturar, mas não totalmente para que os falafel fiquem um pouco crocantes. Ligar o forno nos 180º e colocar uma folha de papel vegetal num tabuleiro grande. Moldar bolinhas e passá-las pelo sésamo. Levar ao forno cerca de 40 minutos, virando os falafel uma ou duas vezes para que assem uniformemente. Servir ainda quentes com o molho de caju.



Tempo de preparação: 60m
Dificuldade: médio

Serve 4

Este artigo surgiu em primeiro lugar no site A Montra, com o qual colaboro.


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quarta-feira, 28 de dezembro de 2016

Adeus 2016, olá 2017 e uns muffins de banana.


Estava à procura de uma maneira de me despedir de 2016 e de dar as boas vindas a 2017, salientando os prós e os contras do que passou e convidando à chegada do novo ano, quando reencontrei esta receita nos rascunhos do blogue. Não deixa de ser um encontro afortunado, ou não tivessem tido estes muffins uma passagem fugaz na minha vida, mas simultaneamente difícil de esquecer.

Será complicado encontrar muitas pessoas que se lembrarão de 2016 com saudades. Sem falar na quantidade de celebridades que esticou o pernil, à inesperada eleição de Trump e a uma série de infortúnios pessoais pelos quais cada um de nós passou, chegamos a 2017 com a sensação de "ufa, finalmente terminou!" com um misto de "oh deus, mas o que será que vem para aí agora?...". Eu digo-vos sinceramente, estou com algum receio. O mundo que as notícias nos apresentam desenha-se como um palco cada vez mais inseguro, instável, precário e triste.

No final de 2015 tomei uma decisão muito importante que pensei me daria o controlo do que perdi: dedicar-me a tempo inteiro à finalização do doutoramento. Como sempre a vida acontece no meio dos planos que tomamos e este ano trouxe mais imprevistos do que certezas. Prefiro concentrar-me no que fui construindo e nas bases sólidas que criei do que no que ainda não concluí. Gosto de pensar que finalmente estou perto da recta final e que fiz tudo com a consciência de que dei o meu melhor face às circunstâncias. Gosto de pensar que me afastei deliberadamente de quem nada me acrescenta, que me valorizei e que formei uma consciência do que quero e do que sou que ultrapassa qualquer opinião ou juízo de valor que terceiros possam ter sobre mim.

Também prefiro não pensar na qualidade de vida que fomos perdendo aqui em casa e nos planos sucessivamente adiados para garantir que a nossa família se mantivesse num rácio de 2 humanos para 3 gatos. Há poucos dias perguntei ao meu marido "Qual a pior coisa de 2016?" e ele respondeu imediatamente "A diabetes do Che." Se as coisas vão funcionando por aqui e continuamos a ter alguma normalidade e liberdade nos intervalos de medições de glicémia, injecções de insulina e horas certas para o alimentar na quantidade adequada, foi porque fizemos um grande esforço como família para nos ajustarmos. Mas admito que é difícil não poder ausentar-me de casa muitas horas, quanto mais um dia ou na loucura um fim‑de‑semana inteiro. Para quem gosta de mandar bocas idiotas e acha que somos maluquinhos por prescindirmos de tanto em função de um gato, lembro-vos que é uma vida que está à nossa responsabilidade e se não sabem lidar com isso, então das duas uma: ou vos desejo igual ou mantenham-se no silêncio e na certeza de quem para burro só lhe falta as penas.

Imagino que face a vários acontecimentos negativos na vossa vida a diabetes felina não vos afecte por aí além. Mas sabem, não foi só a diabetes que atravessou o meu ano. Foram menos dois avós e muitas horas sozinha a pensar no que é que realmente vale a pena guardar e manter junto de mim todos os dias. Foi o sentimento de estar a trabalhar em vão, a correr numa passadeira que não me leva a lado nenhum. Canso-me, suo, estou sozinha. No outro dia tenho de me arrastar da cama e repetir tudo de novo. E se não o fizer com o mínimo de um sorriso na cara, então nem vale a pena fazê-lo de todo.

Estes muffins representam uma lição que gostaria de deixar a mim mesma em 2017: não vale a pena tentar planear tudo. Não vale antecipar, tentar controlar chuvas e ventos, que se alguma coisa nos define é única e exclusivamente a nossa capacidade de aprendermos e nos ajustarmos à tempestade. Estes muffins correspondem a uma receita que desenvolvi para um evento no qual estava ansiosa de participar e que me deixou com borboletas na barriga durante semanas. Infelizmente a vida - ou a morte - aconteceu e os muffins ficaram nos rascunhos. São deliciosos, não merecem este fim. Não merecem ser relembrados como aquilo que poderiam ter sido e que nunca chegaram a ser porque as contingências os empurraram para um vazio de más recordações. Porém aqui estão eles, a prova de que devemos viver no presente e, com o tempo, recuperar aquilo que nos define e faz de nós únicos.

Estes muffins que vos trago hoje são saudáveis e resilientes. Estes muffins são como eu.




Muffins de banana

1 cup de farinha de espelta integral
2 1/2 bananas maduras
1/4 cup de óleo de côco
1 ovo 
1/2 colher de chá de bicarbonato de sódio
2 colheres de sopa de leite de soja
avelãs torradas picadas qb

Esmagar as bananas com um garfo. Adicionar o óleo e o ovo, misturando bem. Adicionar os ingredientes secos e no final o leite vegetal para que a massa não fique muito compacta. Pode acrescentar-se mais um pouco até conseguir uma massa fofa. Colocar a massa em 7 formas individuais de muffin e salpicar com as avelãs. Levar a forno pré-aquecido a 180º cerca de 30m.

Tempo de preparação: 45m
Dificuldade: médio
Serve 4



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sexta-feira, 16 de dezembro de 2016

Um Natal saudável logo a começar nas entradas.




As minhas sugestões para uma mesa de Natal saudável não se apoiam nas memórias de celebrações passadas. Não me lembro de alguma vez ter havido cogumelos ou algas a anteceder o bacalhau ou o peru. Habitualmente comíamos polvo (em casa da minha mãe cuja família é de Trás-os-Montes) e bacalhau em casa do meu pai, tanto um como o outro acompanhados de batatas, ovos e couves cozidas. Depois a mesa ficava posta com queijos e doces, os quais muitas vezes acabavam por ser despachados para a casa dos mais novos em tupperwares vários e coloridos.

Lembro-me o quanto detestava a consoada precisamente por causa do cozido. Suportava-o porque sabia que a seguir viriam as prendas. A minha irmã Margarida lá conseguiu convencer a minha madrasta durante uns anos a trocar-lhe o bacalhau por uma lata de atum e eventualmente lá acabaram as duas por concordar na presença de uma travessa de bacalhau com natas, penso  que com o objectivo de não manchar completamente a tradição. Apenas a tornaram mais calórica e menos nutritiva. 

No dia 25 o meu pai recusava-se a comer peru e também lá conseguiu convencer a minha madrasta se lhe fazia lombo de porco no forno. Novamente a gula venceu à dieta e acabámos uns anos por ter um Natal menos politicamente correcto, mas mais de acordo com os gostos de cada um. 


Agora que sou eu que decido o que comemos no Natal vamos passar por cima de bacalhaus, polvos, perus e porcos. Estamos a pensar fazer uma consoada vegetal aqui em casa, à qual se seguirá um almoço num sítio giro, se tudo correr como o planeado. 

Embora as tradições não tenham obrigatoriamente de ser mantidas todos os anos, há pelo menos um elemento que não pode faltar: a proximidade daqueles que gostam de nós e de quem gostamos. Daqueles que nunca nos falham e que não convertem o amor que não sabem dar ao longo do ano em prendas caras no dia 25. A comida serve como substituto dos laços que unem as famílias e neste caso sugiro que esses vínculos sejam saudáveis em todos os aspectos: não só no que nos alimenta o corpo mas também o espírito. 

Podem também consultar esta minha sugestão para o Natal no site Nutrição Feminina, como parte da rubrica "Inspirar e Nutrir"


Espetadas de Cogumelos com Nori Chips


Espetadas de cogumelos 

~ Ingredientes ~

150g de cogumelos shiitake
2 limões, cortados em rodelas
3 ramos de alecrim fresco
1 colher de chá de molho inglês
pimenta preta
azeite 

Começar por limpar os shiitake, retirando as impurezas e cortando as pontas mais duras. Eu gosto de passá-los por um bocadinho de água, embora o mais indicado seja limpá-los com uma escova até que a sujidade saia totalmente.  
Retirar as folhas dos paus de alecrim, excepto na ponta. Reservar as folhas. Inserir um cogumelo seguido de uma rodela de limão, alternadamente, no pau de espetada. Repetir até terminar os cogumelos. Temperar com o molho inglês, salpicando-o para cima das espetadas. Aquecer um grelhador com um fio de azeite e grelhar as espetadas até que os cogumelos estejam bem cozinhados. 


Nori chips

~ Ingredientes ~

3 folhas de alga nori tostada
2 colheres de sopa de azeite
flor de sal
sementes de sésamo


Ligar o forno nos 150º. Preparar dois tabuleiros grandes, forrando-os com folhas de papel vegetal. Dobrar as folhas de nori em 3 e cortar rectângulos pequenos com uma tesoura. Dispô-los nos tabuleiros e pincelá-los com azeite de um lado. Salpicar a alga com flor de sal, as folhas de alecrim e o sésamo. Levar ao forno cerca de 15 minutos ou até que as chips comecem a ficar um pouco dobradas e estaladiças. Servir com as espetadas de cogumelos.


Tempo de preparação: 45m
Dificuldade: médio
Serve 4

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quarta-feira, 7 de dezembro de 2016

Eu, o Brad, a Irina e um bolo integral de espelta.



"Aaahh finalmente uma receita de bolo", disseram eles enquanto lambiam os beiços. 

"Há falta de doces neste estaminé!", responderam outros enquanto se deliciavam com umas trufas saudáveis publicadas recentemente, as quais esconderam de repente quando foram apanhados na sua própria contradição.

"Desde Agosto que não se via um bolo por aqui!", exclamaram terceiros enquanto mudavam de blogue.

"E esta receita afinal já é vegan??", perguntaram os recentemente desiludidos com o surgimento de um cake de atum


Vou tentar responder a todas estas vozinhas na minha cabeça só numa frase (perdoem-me pelo excesso de vírgulas, estou a tentar marcar uma posição aqui):  há sempre bolo ou muffins cá em casa, os quais alimentam as insónias do meu marido a meio da noite; não há falta de doces, há doces mais saudáveis (na maioria das vezes); curiosamente o último bolo foi publicado numa altura em que tudo o que menos me apetecia era ligar o forno cá em casa; e sim, esta receita é super-vegan e adaptada de um dos livros mais folheados cá em casa, Cozinha vegetariana para quem quer ser saudável da Gabriela Oliveira.

Espero que gostem desta receita de bolo que, apesar de mais saudável (e fantasticamente delicioso!), não deixa de ser um bolo. Seja como for, aproveitem! O Bradley Cooper já fez um filho à Irina, de maneira que podemos todas voltar a comer hidratos de carbono.

Satisfeitos ou vão precisar de mais alguma coisa da minha parte?...

Bolo integral de espelta, limão e sementes de papoila


~ Ingredientes ~

receita adaptada do livro Cozinha vegetariana para quem quer ser saudável de Gabriela Oliveira, p. 153

2 cups de farinha de espelta integral
1 cup de açúcar de tâmaras
1 colher de sopa de sementes de papoila
1 colher de sopa de fermento em pó
1 colher de café de bicarbonato de sódio
1 1/2 cup de leite de soja
1/2 cup de azeite 
1 colher de sopa de sumo de limão
raspa de 1/2 limão

Yammi 2

Numa tigela grande à parte peneirar os ingredientes sólidos. Reservar. Ligar o forno nos 180º.
Colocar o misturador no copo da Yammi 2. Adicionar os ingredientes líquidos e programar 10s/vel1. Quando terminar programar 2m/vel2 e ir adicionando os ingredientes sólidos ao copo com o auxílio de uma colher. Quando estiverem bem misturados, levar ao forno numa forma redonda e untada (ou de silicone) durante 30m.

Tradicional

Numa tigela grande à parte peneirar os ingredientes sólidos. Reservar. Ligar o forno nos 180º.
Numa tigela mais pequena misturar bem todos os ingredientes líquidos. Adicioná-los gradualmente aos secos, mexendo com uma varinha de arames até que estejam bem incorporados. 
Levar ao forno numa forma redonda e untada (ou de silicone) durante 30m.


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quarta-feira, 30 de novembro de 2016

Cá por casa é assim... e uma receita com atum.


Quem conhece este blogue desde o seu início, ou seja, há cerca de quatro anos, consegue identificar tendências e diferenças. Eu também. Consigo identificar uma evolução na maneira de escrever, nos temas escolhidos, na maneira de confeccionar as receitas. Outro aspecto que impactou o conteúdo do blogue foi o facto de ter deixado de comer carne há cerca de dois anos e meio.

Embora a minha alimentação actualmente seja maioritariamente vegetariana e com base nas populares wholefoods, derivados, peixe e marisco ocupam os restantes 20%. Sei que ultimamente as receitas aqui publicadas têm reflectido a maioria das receitas que cozinho cá para casa, o que faz algum sentido, especialmente se estiverem familiarizados com os rudimentos da matemática. O que a maioria não sabe é que eu cozinho muitas vezes comida diferente para mim e para o meu marido, em parte porque não posso obrigá-lo a gostar de tudo o que como, mas também porque cada um tem o direito ao seu percurso. E se posso influenciar pelo exemplo, também não faço milagres nem sou perfeita para dar lições de moral alimentares a ninguém.

Outro aspecto importante a reter acerca do conteúdo deste blogue: eu gosto que ele se mantenha fiel à realidade. E se a realidade envolve por vezes o consumo de peixe, lacticínios e o ocasional bolo, então gosto de vê-los reflectidos aqui também. Se o meu percurso me encaminhar para uma alimentação diferente da que fazemos cá por casa, então esta também aparecerá por aqui. Acima de tudo devemos estar conscientes das nossas escolhas alimentares, ser responsáveis por elas e comermos bem porque gostamos de nós, não para alimentar modas e hashtags


Assim, um dos poucos pontos em comum que eu e o meu marido partilhamos prende-se com o consumo de peixe. Referia-me única e exclusivamente às refeições em conjunto, não sejam más línguas... Ele pede muitas vezes que lhe cozinhe tartes ao domingo, as quais pode ir aquecendo fatia a fatia durante os jantares semanais. E as tartes que pede são geralmente à base de atum. Esta ia sendo mais uma dessas semanas. Só que peguei numa revista do Pingo Doce, folheei as receitas e encontrei este cake. Perguntei-lhe se achava que poderia substituir a tradicional tarte e ele aceitou. O resultado é absolutamente espectacular! Podemos sempre trocar o arroz arborio por arroz integral para incluir mais fibras e o atum por legumes, para não fugirmos ao vegetarianismo. Mas também podemos deixar assim e contentarmo-nos por comermos comida a sério e saborosa.

Vá lá... Pensavam o quê? Que eu agora me alimentava apenas de sementes e alpista?...



                                        Cake de atum, arroz e espinafres


~ Ingredientes ~

receita adaptada da revista "Sabe Bem", n.º 32, p. 85

200g de arroz para risotto
1 folha de louro
1/2 colher de café de sal
2 colheres de sopa de azeite
sumo de 1/2 limão
raspa da casca de 1 limão
1 cebola
1 dente de alho
1 molho de espinafres
3 ovos orgânicos
1 molho de manjericão
3 colheres de sopa de mozarela ralada
2 latas de atum em água, escorrido e passado por água

Cozer o arroz com uma folha de louro e o sal no dobro da água. No final da cozedura retirar o louro e juntar 1 colher de sopa de azeite, o sumo e a raspa de limão.
Picar a cebola e o alho e refogá-los no restante azeite. Adicionar os espinafres lavados, mexer e manter ao lume até que estes murchem. 
Numa tigela à parte bater os ovos, juntar o manjericão e 2 colheres de sopa de queijo. Misturar o arroz com o refogado, juntar a mistura de ovos e  o atum e envolver bem. Retirar do lume, colocar numa forma de bolo inglês, polvilhar com a restante mozarela e levar a forno pré-aquecido a 180º por 30m.

Tempo de preparação: 30m
Dificuldade: fácil
Serve: 6



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quarta-feira, 23 de novembro de 2016

Já estamos quase no Natal... e umas trufas saudáveis.



É incrível como este ano está a passar depressa! Ainda há dias estava a refilar do calor e agora já sinto que devo começar a escrever sobre o Natal. Não me recordo de um ano que tenha passado tão rapidamente... Este teve o seu quê de peculiar após a minha decisão de me concentrar única e exclusivamente na finalização da tese de doutoramento. A maior parte do tempo passei-a em casa, muitas vezes em frente ao computador, outras tantas em frente aos tachos. O resto da energia concentrou-se na gestão da diabetes do meu gato, que pelos vistos há-de continuar um mistério em termos de doses de insulina ideais, hiper e hipoglicémias. 


Não vi o ano passar como os anteriores. Senti as estações na roupa que punha e tirava do corpo dentro de casa. Nas refeições mais ou menos quentes que se confeccionaram por aqui. Na utilização do forno ou, em alternativa, do ar condicionado. Foi um ano de reflexão, de observação e de ajuste a novas realidades, mas não foi um ano de participação activa. Pode parecer estranho que esteja já a reflectir num balanço, mas a um mês do final do ano não deve haver muitas mais surpresas. Ou assim espero que este ano foram mais sobressaltos do que propriamente prazeres inesperados, isto claro, se descontarmos o nascimento do meu sobrinho mais novo, o facto do meu marido ter deixado finalmente de fumar e, obviamente, o golo do Eder que fez de todos nós campeões europeus.

A receita de hoje é novamente apresentada com o auxílio da Yammi 2. Aqui a sua actuação não é omnipresente, mas determinante porque, sendo um robot de cozinha muito potente, permitiu que estas trufas de grão de bico ficassem trituradas na perfeição. Sugiro que as experimentem para um snack a meio da tarde sem grandes picos glicémicos. Ao contrário do meu gato, claro.


Trufas de grão de bico

~ Ingredientes ~

1 cup de grão de bico cozido
1/2 colher de sopa de óleo de côco
6 figos secos
1 colher de sopa de cacau + 1/2 colher de sopa para envolver


Colocar todos os ingredientes na Yammi 2. Programar 20s/Vel7. Baixar os ingredientes com a espátula. Repetir até homogeneizar completamente. Fazer bolinhas com as mãos e envolvê-las no cacau. Levar ao frigorífico até que as trufas estejam rijas.

* Quem não tiver Yammi pode sempre utilizar um robot de cozinha ou liquidificadora potente para triturar os ingredientes. 

Tempo de preparação: 15m
Dificuldade: fácil
Serve 4 (cerca de 8 trufas, consoante o tamanho).



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terça-feira, 15 de novembro de 2016

Oh no, another green smoothie recipe...



Às vezes chego muito atrasada às modas. Há cerca de dois anos atrás surgiu um boom de sumos verdes, sumos detox, batidos saudáveis, you name it. Com isso nutricionistas e bloggers ganharam protagonismo de um momento para o outro. Não havia revista (desde à Activa passando pela Sábado) que não surgisse com uma nova receita onde se escondiam superalimentos e promessas de juventude eterna. Parecia que tínhamos encontrado a fonte da juventude não no fim do arco-íris (ah, pois aí é o pote de ouro... bom, algumas encontraram-no!) e desprezando a ajuda de Ponce de Leon. Essas senhoras aproveitaram a onda dos legumes crus, surfaram-na e tão depressa como os verdes chegaram, também desapareceram. Ou assim pareceu. 

Na altura também me apeteceu experimentar os famosos sumos verdes e usufruir das suas propriedades aparentemente milagrosas: melhor digestão, pele mais radiante, saúde de ferro e perda de peso. O costume, portanto. Claro que quis fazer as minhas próprias experiências. O resultado não foi de todo o esperado: imenso inchaço abdominal, horas de digestão e uma aversão generalizada a tudo o que fosse verde e cru, excepto na salada. Surgiram os primeiros alertas: "your green juice might be causing you to gain weight!!" WTF? Batidos verdes nunca mais, pensei eu.


Seguindo aquele famoso adágio "nunca digas nunca", recentemente voltei a dar uma segunda chance aos batidos verdes. Informei-me melhor acerca de alguns mitos (como o consumo em cru de espinafres e a sua relação com o ácido oxálico) e quais as melhores combinações de ingredientes. Percebi quais os erros que estava a comentar no passado e como gostaria que uma fotografia facilmente instagramável de um sumo verde viesse com manual de instruções. Como sempre, menos é mais, pelo que sugiro a leitura destas duas publicações para ajudar na construção destes batidos: smoothies for beginners e green smoothie questions. Para mim o essencial é: não aldrabar na fórmula dois legumes + duas peças de fruta; não coar o batido; alternar os ingredientes; e acrescentar apenas um extra que torne o sumo diferente (por exemplo, uma proteína vegetal, um superalimento, matcha...). 


Tenho experimentado beber um por dia ou a cada dois dias. Adoro a cremosidade que a banana confere aos batidos. As acelgas, mas não o seu tronco mais rijo, são uma adição muito bem vinda a qualquer sumo. Uma maçã ou uma pêra madura fazem maravilhas para contrapor aquele sabor "mais verde". Não sei se será efeito placebo ou auto-sugestão, mas sinto-me realmente mais bem disposta e com mais energia após beber estes sumos.

Enfim, há um sem fim de combinações e experiências que actualmente me fazem incluir estes batidos na minha rotina e recebê-los sem os efeitos secundários que há poucos anos atrás me fizeram rejeitá-los completamente. Sugiro que lhes dêem também uma segunda oportunidade, se for o caso, e a não cair na tentação do tempo frio que se avizinha e fazer uma sopa com estes legumes crus. 

Sumo Verde


 ~ Ingredientes ~

Um punhado de folhas de espinafre selvagem 
Uma maçã
sumo de uma laranja
Duas colheres sopa de funcho fresco cortado em pedaços
Um pedaço pequeno de gengibre fresco
Uma colher de sopa de cânhamo em pó
Água


Misturar todos os ingredientes num liquidificador. Beber imediatamente sem coar.



Tempo de preparação: 15m
Dificuldade: fácil
Serve 1



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terça-feira, 8 de novembro de 2016

WTF (Where's The Food)?



Em tempos já aqui mencionei os pilares para manter a minha saúde a funcionar como deve ser: ler bons livros; comer comida saborosa, saudável e nutritiva; exercício físico (de preferência correr); e meditação. CORPO/MENTE, para quem ainda segue a tradição cartesiana de os separar em duas entidades distintas. Não é o meu caso. Em breve poderemos explorar melhor cada um destes pilares. Por outras palavras, eu escrevo e vocês lêem.

Se conseguir manter o equilíbrio entre estes quatro pilares a minha vida flui muito mais naturalmente, sem altos nem baixos, sem grandes ansiedades. Claro que isso não significa ficar obcecada por correr três vezes por semana (nem os meus joelhos apreciariam tal compromisso) ou passar por uma fatia de bolo e não lhe dar uma dentada. No meu entender "saudável" não é sinónimo de restrição, significa antes manter uma relação positiva e consciente com tudo o que nos envolve, comida e não só. Faz-me uma impressão tremenda ver publicações de fotografias com comida deliciosa com o respectivo comentário: "hoje mereço porque já treinei" ou "este fiz para a família, aqui não entra!".

O mesmo vale para a obsessão com a popular "clean food" ou os "guilty pleasures". Embora seja 100% a favor de uma alimentação livre de alimentos processados e natural, sou contra alimentar qualquer tipo de restrições que possam descambar numa relação pouco saudável com a comida e com o nosso corpo. Não vou associar sentimentos de culpa a uma refeição, caso contrário lembro-me da minha Avó a mandar-me terminar a sopa quando não me apetecia porque os meninos de África não tinham nada no prato. A não ser, claro, que o que esteja a comer não considere comida (por exemplo, carne, o que para mim é o equivalente a servir os meus gatos ao jantar porque culturalmente em Portugal não se comem cães nem gatos, mas sim vacas, porcos e galinhas).

A própria noção de "comida limpa" é potencialmente nefasta, porque se contrapõe a quê? Comida suja, certo? E para mim, "comida suja" é apenas e não mais aquela que comemos e que nos faz sentir mal porque nós deixamos e alimentamos a ideia de que somos de alguma maneira imperfeitos porque consentimos com esse alimento. E sentir mal acerca do quê? Prefiro contribuir para dar ao meu corpo o que ele merece porque gosto dele e não porque quero alcançar uma determinada estética ou ideal de beleza e saúde cujo perfeccionismo se torna contraproducente. Mesmo em relação ao açúcar, com todos os malefícios e sendo um "ingrediente" que eu qualifico como estando nos antípodas de tudo o que devemos introduzir no nosso corpo (no pun intended...), se numa refeição me apetecer sobremesa, como-a. Não é para comer todos os dias e não vou estragar um momento agradável e de convívio num pesadelo porque da lista de ingredientes dessa sobremesa consta açúcar. Posso é optar por adoçantes mais naturais e benéficos, como é o caso das tâmaras, quando cozinho cá em casa a maior parte das vezes.

Equilíbrio, gente!

Existe muito mais na comida do que alimento. Existe toda uma rede de relações e de significados, estruturas de poder e de conclusões a retirar. Existem artigos em antropologia versando desde a arte de governar a obesidade de Jamie Oliver a toda a obra do falecido Sidney Mintz sobre o açúcar e a soja enquanto linguagens para compreender a economia mundial. Existem também as reivindicações da Bela Gil - aquela que se autodenomina "a vegetariana que come carne" ou, por outras palavras, aquela que se libertou dos rótulos - que constantemente se debate pelo retorno ao orgânico, à comida de verdade, à taxação do açúcar (não confundir com a taxação das bebidas açucaradas em Portugal de um governo que na mesma hora prometeu milhões para recuperar a indústria agropecuária nacional,  cedendo ao lobby de uma das atividades mais poluentes). Bela defende muito a necessidade de conhecermos o que comemos, porque o fazemos, de comprarmos comida sem listas de ingredientes, mas sim na feira, e de mantermos relações tão próximas com o agricultor que nos vende legumes como com o médico e com o farmacêutico. Bela defende uma politização da comida, o direito de reivindicarmos o que é o melhor para nós e de que as leis reflictam essa preocupação com a nossa saúde e com o meio ambiente.

Gostaria muito de adiantar a discussão questionando-me como poderemos ser realmente cidadãos activos se nos movemos na lama da precariedade, mas vou deixar que a Bela me ajude a cozinhar e fale por mim:

Retirado da página de facebook da Bela Gil.

Farofa de couve coração


~ Ingredientes ~

receita adaptada de Bela Cozinha

1 fio de azeite
1/2 cebola picada
2 dentes de alho picados
1 fio de azeite
5 folhas de couve coração cortada muito fitinha
1 1/2 chávena de farinha de mandioca 
sal
azeitonas


Numa frigideira refogar a cebola e o alho no azeite até que fiquem translúcidos. Adicionar a farinha de mandioca e cozinhar em lume baixo até que comece a dourar. Temperar com uma pitada de sal e adicionar a couve. Cozinhar mais uns minutos até que a couve murche. Verificar o sal e servir salpicado com azeitonas.



Tempo de preparação: 30 minutos

Dificuldade: fácil
Serve 4 

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