quarta-feira, 7 de dezembro de 2016

Eu, o Brad, a Irina e um bolo integral de espelta.



"Aaahh finalmente uma receita de bolo", disseram eles enquanto lambiam os beiços. 

"Há falta de doces neste estaminé!", responderam outros enquanto se deliciavam com umas trufas saudáveis publicadas recentemente, as quais esconderam de repente quando foram apanhados na sua própria contradição.

"Desde Agosto que não se via um bolo por aqui!", exclamaram terceiros enquanto mudavam de blogue.

"E esta receita afinal já é vegan??", perguntaram os recentemente desiludidos com o surgimento de um cake de atum


Vou tentar responder a todas estas vozinhas na minha cabeça só numa frase (perdoem-me pelo excesso de vírgulas, estou a tentar marcar uma posição aqui):  há sempre bolo ou muffins cá em casa, os quais alimentam as insónias do meu marido a meio da noite; não há falta de doces, há doces mais saudáveis (na maioria das vezes); curiosamente o último bolo foi publicado numa altura em que tudo o que menos me apetecia era ligar o forno cá em casa; e sim, esta receita é super-vegan e adaptada de um dos livros mais folheados cá em casa, Cozinha vegetariana para quem quer ser saudável da Gabriela Oliveira.

Espero que gostem desta receita de bolo que, apesar de mais saudável (e fantasticamente delicioso!), não deixa de ser um bolo. Seja como for, aproveitem! O Bradley Cooper já fez um filho à Irina, de maneira que podemos todas voltar a comer hidratos de carbono.

Satisfeitos ou vão precisar de mais alguma coisa da minha parte?...

Bolo integral de espelta, limão e sementes de papoila


~ Ingredientes ~

receita adaptada do livro Cozinha vegetariana para quem quer ser saudável de Gabriela Oliveira, p. 153

2 cups de farinha de espelta integral
1 cup de açúcar de tâmaras
1 colher de sopa de sementes de papoila
1 colher de sopa de fermento em pó
1 colher de café de bicarbonato de sódio
1 1/2 cup de leite de soja
1/2 cup de azeite 
1 colher de sopa de sumo de limão
raspa de 1/2 limão

Yammi 2

Numa tigela grande à parte peneirar os ingredientes sólidos. Reservar. Ligar o forno nos 180º.
Colocar o misturador no copo da Yammi 2. Adicionar os ingredientes líquidos e programar 10s/vel1. Quando terminar programar 2m/vel2 e ir adicionando os ingredientes sólidos ao copo com o auxílio de uma colher. Quando estiverem bem misturados, levar ao forno numa forma redonda e untada (ou de silicone) durante 30m.

Tradicional

Numa tigela grande à parte peneirar os ingredientes sólidos. Reservar. Ligar o forno nos 180º.
Numa tigela mais pequena misturar bem todos os ingredientes líquidos. Adicioná-los gradualmente aos secos, mexendo com uma varinha de arames até que estejam bem incorporados. 
Levar ao forno numa forma redonda e untada (ou de silicone) durante 30m.


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quarta-feira, 30 de novembro de 2016

Cá por casa é assim... e uma receita com atum.


Quem conhece este blogue desde o seu início, ou seja, há cerca de quatro anos, consegue identificar tendências e diferenças. Eu também. Consigo identificar uma evolução na maneira de escrever, nos temas escolhidos, na maneira de confeccionar as receitas. Outro aspecto que impactou o conteúdo do blogue foi o facto de ter deixado de comer carne há cerca de dois anos e meio.

Embora a minha alimentação actualmente seja maioritariamente vegetariana e com base nas populares wholefoods, derivados, peixe e marisco ocupam os restantes 20%. Sei que ultimamente as receitas aqui publicadas têm reflectido a maioria das receitas que cozinho cá para casa, o que faz algum sentido, especialmente se estiverem familiarizados com os rudimentos da matemática. O que a maioria não sabe é que eu cozinho muitas vezes comida diferente para mim e para o meu marido, em parte porque não posso obrigá-lo a gostar de tudo o que como, mas também porque cada um tem o direito ao seu percurso. E se posso influenciar pelo exemplo, também não faço milagres nem sou perfeita para dar lições de moral alimentares a ninguém.

Outro aspecto importante a reter acerca do conteúdo deste blogue: eu gosto que ele se mantenha fiel à realidade. E se a realidade envolve por vezes o consumo de peixe, lacticínios e o ocasional bolo, então gosto de vê-los reflectidos aqui também. Se o meu percurso me encaminhar para uma alimentação diferente da que fazemos cá por casa, então esta também aparecerá por aqui. Acima de tudo devemos estar conscientes das nossas escolhas alimentares, ser responsáveis por elas e comermos bem porque gostamos de nós, não para alimentar modas e hashtags


Assim, um dos poucos pontos em comum que eu e o meu marido partilhamos prende-se com o consumo de peixe. Referia-me única e exclusivamente às refeições em conjunto, não sejam más línguas... Ele pede muitas vezes que lhe cozinhe tartes ao domingo, as quais pode ir aquecendo fatia a fatia durante os jantares semanais. E as tartes que pede são geralmente à base de atum. Esta ia sendo mais uma dessas semanas. Só que peguei numa revista do Pingo Doce, folheei as receitas e encontrei este cake. Perguntei-lhe se achava que poderia substituir a tradicional tarte e ele aceitou. O resultado é absolutamente espectacular! Podemos sempre trocar o arroz arborio por arroz integral para incluir mais fibras e o atum por legumes, para não fugirmos ao vegetarianismo. Mas também podemos deixar assim e contentarmo-nos por comermos comida a sério e saborosa.

Vá lá... Pensavam o quê? Que eu agora me alimentava apenas de sementes e alpista?...



                                        Cake de atum, arroz e espinafres


~ Ingredientes ~

receita adaptada da revista "Sabe Bem", n.º 32, p. 85

200g de arroz para risotto
1 folha de louro
1/2 colher de café de sal
2 colheres de sopa de azeite
sumo de 1/2 limão
raspa da casca de 1 limão
1 cebola
1 dente de alho
1 molho de espinafres
3 ovos orgânicos
1 molho de manjericão
3 colheres de sopa de mozarela ralada
2 latas de atum em água, escorrido e passado por água

Cozer o arroz com uma folha de louro e o sal no dobro da água. No final da cozedura retirar o louro e juntar 1 colher de sopa de azeite, o sumo e a raspa de limão.
Picar a cebola e o alho e refogá-los no restante azeite. Adicionar os espinafres lavados, mexer e manter ao lume até que estes murchem. 
Numa tigela à parte bater os ovos, juntar o manjericão e 2 colheres de sopa de queijo. Misturar o arroz com o refogado, juntar a mistura de ovos e  o atum e envolver bem. Retirar do lume, colocar numa forma de bolo inglês, polvilhar com a restante mozarela e levar a forno pré-aquecido a 180º por 30m.

Tempo de preparação: 30m
Dificuldade: fácil
Serve: 6



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quarta-feira, 23 de novembro de 2016

Já estamos quase no Natal... e umas trufas saudáveis.



É incrível como este ano está a passar depressa! Ainda há dias estava a refilar do calor e agora já sinto que devo começar a escrever sobre o Natal. Não me recordo de um ano que tenha passado tão rapidamente... Este teve o seu quê de peculiar após a minha decisão de me concentrar única e exclusivamente na finalização da tese de doutoramento. A maior parte do tempo passei-a em casa, muitas vezes em frente ao computador, outras tantas em frente aos tachos. O resto da energia concentrou-se na gestão da diabetes do meu gato, que pelos vistos há-de continuar um mistério em termos de doses de insulina ideais, hiper e hipoglicémias. 


Não vi o ano passar como os anteriores. Senti as estações na roupa que punha e tirava do corpo dentro de casa. Nas refeições mais ou menos quentes que se confeccionaram por aqui. Na utilização do forno ou, em alternativa, do ar condicionado. Foi um ano de reflexão, de observação e de ajuste a novas realidades, mas não foi um ano de participação activa. Pode parecer estranho que esteja já a reflectir num balanço, mas a um mês do final do ano não deve haver muitas mais surpresas. Ou assim espero que este ano foram mais sobressaltos do que propriamente prazeres inesperados, isto claro, se descontarmos o nascimento do meu sobrinho mais novo, o facto do meu marido ter deixado finalmente de fumar e, obviamente, o golo do Eder que fez de todos nós campeões europeus.

A receita de hoje é novamente apresentada com o auxílio da Yammi 2. Aqui a sua actuação não é omnipresente, mas determinante porque, sendo um robot de cozinha muito potente, permitiu que estas trufas de grão de bico ficassem trituradas na perfeição. Sugiro que as experimentem para um snack a meio da tarde sem grandes picos glicémicos. Ao contrário do meu gato, claro.


Trufas de grão de bico

~ Ingredientes ~

1 cup de grão de bico cozido
1/2 colher de sopa de óleo de côco
6 figos secos
1 colher de sopa de cacau + 1/2 colher de sopa para envolver


Colocar todos os ingredientes na Yammi 2. Programar 20s/Vel7. Baixar os ingredientes com a espátula. Repetir até homogeneizar completamente. Fazer bolinhas com as mãos e envolvê-las no cacau. Levar ao frigorífico até que as trufas estejam rijas.

* Quem não tiver Yammi pode sempre utilizar um robot de cozinha ou liquidificadora potente para triturar os ingredientes. 

Tempo de preparação: 15m
Dificuldade: fácil
Serve 4 (cerca de 8 trufas, consoante o tamanho).



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terça-feira, 15 de novembro de 2016

Oh no, another green smoothie recipe...



Às vezes chego muito atrasada às modas. Há cerca de dois anos atrás surgiu um boom de sumos verdes, sumos detox, batidos saudáveis, you name it. Com isso nutricionistas e bloggers ganharam protagonismo de um momento para o outro. Não havia revista (desde à Activa passando pela Sábado) que não surgisse com uma nova receita onde se escondiam superalimentos e promessas de juventude eterna. Parecia que tínhamos encontrado a fonte da juventude não no fim do arco-íris (ah, pois aí é o pote de ouro... bom, algumas encontraram-no!) e desprezando a ajuda de Ponce de Leon. Essas senhoras aproveitaram a onda dos legumes crus, surfaram-na e tão depressa como os verdes chegaram, também desapareceram. Ou assim pareceu. 

Na altura também me apeteceu experimentar os famosos sumos verdes e usufruir das suas propriedades aparentemente milagrosas: melhor digestão, pele mais radiante, saúde de ferro e perda de peso. O costume, portanto. Claro que quis fazer as minhas próprias experiências. O resultado não foi de todo o esperado: imenso inchaço abdominal, horas de digestão e uma aversão generalizada a tudo o que fosse verde e cru, excepto na salada. Surgiram os primeiros alertas: "your green juice might be causing you to gain weight!!" WTF? Batidos verdes nunca mais, pensei eu.


Seguindo aquele famoso adágio "nunca digas nunca", recentemente voltei a dar uma segunda chance aos batidos verdes. Informei-me melhor acerca de alguns mitos (como o consumo em cru de espinafres e a sua relação com o ácido oxálico) e quais as melhores combinações de ingredientes. Percebi quais os erros que estava a comentar no passado e como gostaria que uma fotografia facilmente instagramável de um sumo verde viesse com manual de instruções. Como sempre, menos é mais, pelo que sugiro a leitura destas duas publicações para ajudar na construção destes batidos: smoothies for beginners e green smoothie questions. Para mim o essencial é: não aldrabar na fórmula dois legumes + duas peças de fruta; não coar o batido; alternar os ingredientes; e acrescentar apenas um extra que torne o sumo diferente (por exemplo, uma proteína vegetal, um superalimento, matcha...). 


Tenho experimentado beber um por dia ou a cada dois dias. Adoro a cremosidade que a banana confere aos batidos. As acelgas, mas não o seu tronco mais rijo, são uma adição muito bem vinda a qualquer sumo. Uma maçã ou uma pêra madura fazem maravilhas para contrapor aquele sabor "mais verde". Não sei se será efeito placebo ou auto-sugestão, mas sinto-me realmente mais bem disposta e com mais energia após beber estes sumos.

Enfim, há um sem fim de combinações e experiências que actualmente me fazem incluir estes batidos na minha rotina e recebê-los sem os efeitos secundários que há poucos anos atrás me fizeram rejeitá-los completamente. Sugiro que lhes dêem também uma segunda oportunidade, se for o caso, e a não cair na tentação do tempo frio que se avizinha e fazer uma sopa com estes legumes crus. 

Sumo Verde


 ~ Ingredientes ~

Um punhado de folhas de espinafre selvagem 
Uma maçã
sumo de uma laranja
Duas colheres sopa de funcho fresco cortado em pedaços
Um pedaço pequeno de gengibre fresco
Uma colher de sopa de cânhamo em pó
Água


Misturar todos os ingredientes num liquidificador. Beber imediatamente sem coar.

Tempo de preparação: 15m
Dificuldade: fácil
Serve 1



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terça-feira, 8 de novembro de 2016

WTF (Where's The Food)?




Em tempos já aqui mencionei os pilares para manter a minha saúde a funcionar como deve ser: ler bons livros; comer comida saborosa, saudável e nutritiva; exercício físico (de preferência correr); e meditação. CORPO/MENTE, para quem ainda segue a tradição cartesiana de os separar em duas entidades distintas. Não é o meu caso. Em breve poderemos explorar melhor cada um destes pilares. Por outras palavras, eu escrevo e vocês lêem.

Se conseguir manter o equilíbrio entre estes quatro pilares a minha vida flui muito mais naturalmente, sem altos nem baixos, sem grandes ansiedades. Claro que isso não significa ficar obcecada por correr três vezes por semana (nem os meus joelhos apreciariam tal compromisso) ou passar por uma fatia de bolo e não lhe dar uma dentada. No meu entender "saudável" não é sinónimo de restrição, significa antes manter uma relação positiva e consciente com tudo o que nos envolve, comida e não só. Faz-me uma impressão tremenda ver publicações de fotografias com comida deliciosa com o respectivo comentário: "hoje mereço porque já treinei" ou "este fiz para a família, aqui não entra!".

O mesmo vale para a obsessão com a popular "clean food" ou os "guilty pleasures". Embora seja 100% a favor de uma alimentação livre de alimentos processados e natural, sou contra alimentar qualquer tipo de restrições que possam descambar numa relação pouco saudável com a comida e com o nosso corpo. Não vou associar sentimentos de culpa a uma refeição, caso contrário lembro-me da minha Avó a mandar-me terminar a sopa quando não me apetecia porque os meninos de África não tinham nada no prato. A não ser, claro, que o que esteja a comer não considere comida (por exemplo, carne, o que para mim é o equivalente a servir os meus gatos ao jantar porque culturalmente em Portugal não se comem cães nem gatos, mas sim vacas, porcos e galinhas).

A própria noção de "comida limpa" é potencialmente nefasta, porque se contrapõe a quê? Comida suja, certo? E para mim, "comida suja" é apenas e não mais aquela que comemos e que nos faz sentir mal porque nós deixamos e alimentamos a ideia de que somos de alguma maneira imperfeitos porque consentimos com esse alimento. E sentir mal acerca do quê? Prefiro contribuir para dar ao meu corpo o que ele merece porque gosto dele e não porque quero alcançar uma determinada estética ou ideal de beleza e saúde cujo perfeccionismo se torna contraproducente. Mesmo em relação ao açúcar, com todos os malefícios e sendo um "ingrediente" que eu qualifico como estando nos antípodas de tudo o que devemos introduzir no nosso corpo (no pun intended...), se numa refeição me apetecer sobremesa, como-a. Não é para comer todos os dias e não vou estragar um momento agradável e de convívio num pesadelo porque da lista de ingredientes dessa sobremesa consta açúcar. Posso é optar por adoçantes mais naturais e benéficos, como é o caso das tâmaras, quando cozinho cá em casa a maior parte das vezes.

Equilíbrio, gente!

Existe muito mais na comida do que alimento. Existe toda uma rede de relações e de significados, estruturas de poder e de conclusões a retirar. Existem artigos em antropologia versando desde a arte de governar a obesidade de Jamie Oliver a toda a obra do falecido Sidney Mintz sobre o açúcar e a soja enquanto linguagens para compreender a economia mundial. Existem também as reivindicações da Bela Gil - aquela que se autodenomina "a vegetariana que come carne" ou, por outras palavras, aquela que se libertou dos rótulos - que constantemente se debate pelo retorno ao orgânico, à comida de verdade, à taxação do açúcar (não confundir com a taxação das bebidas açucaradas em Portugal de um governo que na mesma hora prometeu milhões para recuperar a indústria agropecuária nacional,  cedendo ao lobby de uma das atividades mais poluentes). Bela defende muito a necessidade de conhecermos o que comemos, porque o fazemos, de comprarmos comida sem listas de ingredientes, mas sim na feira, e de mantermos relações tão próximas com o agricultor que nos vende legumes como com o médico e com o farmacêutico. Bela defende uma politização da comida, o direito de reivindicarmos o que é o melhor para nós e de que as leis reflictam essa preocupação com a nossa saúde e com o meio ambiente.

Gostaria muito de adiantar a discussão questionando-me como poderemos ser realmente cidadãos activos se nos movemos na lama da precariedade, mas vou deixar que a Bela me ajude a cozinhar e fale por mim:

Retirado da página de facebook da Bela Gil.

Farofa de couve coração



~ Ingredientes ~

receita adaptada de Bela Cozinha

1 fio de azeite
1/2 cebola picada
2 dentes de alho picados
1 fio de azeite
5 folhas de couve coração cortada muito fitinha
1 1/2 chávena de farinha de mandioca 
sal
azeitonas


Numa frigideira refogar a cebola e o alho no azeite até que fiquem translúcidos. Adicionar a farinha de mandioca e cozinhar em lume baixo até que comece a dourar. Temperar com uma pitada de sal e adicionar a couve. Cozinhar mais uns minutos até que a couve murche. Verificar o sal e servir salpicado com azeitonas.

Tempo de preparação: 30 minutos

Dificuldade: fácil
Serve 4 

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quarta-feira, 2 de novembro de 2016

Das ausências.


Nunca me aconchegaste na cama. Nunca me puseste a mão na testa quando tinha febre. Nunca passaste uma noite acordada para garantir que eu dormia bem. Nunca perdeste uma tarde para brincar comigo. Nunca me levaste aos pastéis de Belém. Nunca me compraste algodão doce no Jardim Zoológico. Nunca me deste nada sem esperar algo em troca. Nunca fizeste parte do meu mundo e eu nunca fiz parte do teu. 

Foste a Rosa porque eu já tinha um Avô e uma Avó e não percebia o porquê de acrescentar um terceiro elemento ao par. Ela aconchegou-me na cama. Pôs-me a mão na testa quando tive febre. Passou várias noites acordada para garantir que eu dormia bem. Brincava comigo tardes inteiras. Ele levou-me tantas vezes a lanchar aos pastéis de Belém. Comprou-me algodão doce e pipocas no Jardim Zoológico. Eles deram-me o mundo sem esperar nada em troca. Tu aparecias e desaparecias como te convinha.

A tua ausência era um conforto. Uma presença pela negativa. A confirmação de que um algarismo extra não cabe num par. Seria extremamente ambicioso dizer que aprendi a gostar de ti. Gostava de tudo aquilo que esperava que fosses e que não eras capaz de ser, mas tentei aprender a conviver contigo e com o que tu não eras: a avó preocupada, a avó maternal, a avó boa. O que tu eras e a sua ausência chegavam-me de mãos dadas e tinha de abrir a porta a ambas e deixá-las entrar. Nem sempre o consegui fazer e isso há-de perseguir-me para sempre, o não ter conseguido ser superior a todas as tuas fraquezas, ter esperado mais do que alguma vez estiveste disposta a dar-me. Desculpa-me por não ter conseguido gostar de ti como eras.

Vou recordar as notas positivas, se as encontrar. A tua determinação, a tua independência e a tua arrogância. O amor que o avô tinha por ti. O que ele, quando te olhava, mais ninguém conseguia encontrar. Nos teus cabelos loiros - agora já brancos - e nos teus olhos azuis - agora já baços - ele tentou formar uma família e tu presenteaste-nos com a tua ausência. E agora que tu já não és, que tu já cá não estás e que já sei o que nunca serás, a que hei-de dizer adeus se nunca foste nossa, só tua?

E tudo aquilo que te fazia única, também te fazia menos humana, num ciclo vicioso que começava e acabava em ti. As ausências que criaste, os espaços em branco que nunca te dispuseste a completar, a tua determinação em seres tu mesma afinal não te libertou de, no final, ficares reduzida à fragilidade que  nos nivela a todos.


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terça-feira, 25 de outubro de 2016

Hoje não há receita (4).


Daqui.

Acho que já confessei aqui que um dos pilares da minha saúde é a meditação. Até há cerca de um ano atrás o único contacto que tinha tido com esta prática fora através de um conhecido que durante um mês viveu na Índia para aprender a meditar num templo budista. Pode parecer um passo arrojado, mas precisavam de conhecer a personagem para alcançar o porquê de eu durante tanto tempo ter suspeitado de práticas meditativas. Quem vai para a Índia com o objectivo de enriquecer o seu currículo profissional e aprender maneiras de auto-controlo para melhor manipular terceiros não recebe os meus aplausos. Na minha cabeça, a meditação não ganhou pontos.

E qual a melhor maneira de lidar com pessoas cheias de si mesmas? Rindo, pois claro. Uma tarde estava ele maldisposto e eu perguntei-lhe o que se passava. Respondeu-me “Hoje não meditei.” Ao que lhe pergunta uma colega rapidamente: “Não te deitaste? Passaste a noite toda de pé?”. Eu ri tanto e tão alto que a secretária do nosso chefe entrou na nossa sala a perguntar se no meu relógio já eram seis da tarde. 

Entretanto a minha vida mudou radicalmente e estas pessoas deixaram de fazer parte dela. E quando elas saíram, a meditação entrou. Meses depois, em conversa com um amigo que me confidenciou estar a passar por um período de grande ansiedade na sua vida, procurei maneiras de ajudá-lo e todos os artigos que o google me apresentava falavam de meditação. Agora perguntam vocês, porque não te sentaste antes com ele a conversar, lhe deste um abraço e ofereceste um chá? Em primeiro lugar porque ele é inglês e mora em Cambridge e segundo porque não gosta de chá. Parece contraditório, mas não, é a mais pura das verdades. Então tentei apoiá-lo da melhor maneira que consegui, googlando “anxiety”. E foi numa dessas pesquisas que encontrei o Headspace, um projecto da autoria de Andy Puddicombe, um monge budista / desportista / artista de circo. Como também não sou a pessoa mais tranquila do mundo e o programa é gratuito, resolvi vencer a minha resistência inicial à meditação e comecei pelas primeiras dez sessões, cada uma de dez minutos. Não podia recomendar ao meu amigo nada que não tivesse testado primeiro, certo?

O famoso “Take 10” às primeiras vezes não encaixou bem comigo. Sentia grande dificuldade em sentar-me por tanto tempo, concentrada naquela voz suave que me guiava por caminhos tão tortuosos como os meus pensamentos. Começava por inspirar e expirar fundo quatro ou cinco vezes, com energia suficiente para ser ouvida por alguém ao meu lado. Sentada confortavelmente na cadeira, começava a sentir comichões em todo o lado mal fechava os olhos. Não sabia se havia de descansar as mãos nos braços da cadeira, se nas pernas. Não conseguia sentir o chão debaixo dos meus pés porque estava de meias. Qual o ponto de contacto com a cadeira? Sei lá! E é suposto sentir aquela “rising and falling sensation” da respiração exactamente onde? De cada vez que me decidia a meditar, sentia que não o estava a fazer bem. Forçava-me a seguir a voz e rapidamente me distraía. 

“Tanto silêncio… O que estarão os gatos a fazer? Ah sim, inspira um, expira dois… De certeza que aqueles sacanas estão a arranhar-me o sofá todo… Medita, medita… Carlota não persigas moscas em cima do computador, estou a tentar relaxar!… Um, dois, três, quatro… À procura das zonas de tensão no corpo… Será que posso responder TODAS? Ok, isto não está a resultar, são menos dez minutos do dia em que trabalho, parece que fico mais ansiosa obrigando-me a estar tanto tempo parada e sinto o desconforto a colar-se-me à pele …”

A vontade de desistir foi imensa, mas perseverei. O google continuava a garantir-me que a meditação tinha resultados comprovados no controlo da ansiedade e o Andy mantinha que não havia vencedores nem vencidos no que à meditação diz respeito. As técnicas aperfeiçoavam com o tempo e ele parecia estar sempre um passo à frente das minhas dúvidas, inquietações e dificuldades. Não quis deixar o rapaz a falar sozinho e todos os dias me sentava dez minutos para praticar a minha capacidade de estar presente no momento, a minha respiração, a reconhecer e a aceitar todas as tensões no meu corpo. Aprendi a dar um passo atrás em relação aos meus pensamentos, a vê-los passar à minha frente enquanto me imaginava como um céu azul. Eles, as nuvens cinzentas, eu a calmaria em pessoa a vê-los passar, aceitando-os sem julgar até deixarem de ter poder sobre mim. Tentei levar esta tranquilidade para o meu dia a dia, aprendi a respirar  sentindo o ar passar pelos meus pulmões, o peito a subir e a descer pausadamente. Comecei a ter pequenas epifanias horas depois da meditação. Pensamentos bloqueados que subitamente me pareciam bastante mais claros. “Como é possível que não tivesse visto isto antes? Reflecti sobre esta situação tantas e tantas vezes, analisando-a de todos os ângulos possíveis…” Pois, remoí. 

Dos dez minutos diários, passei para os quinze. A transição não foi suave, mas todos os dias a minha agenda me relembrava que esse era um dos compromissos que devia manter. E mantive-o. Se não demorei quinze dias, demorei outros tantos, mas fui vendo os resultados e mal passei para os vinte minutos de meditação diária, senti-me um BUDA! Por esta altura já andava a chatear toda a gente à minha volta para começar a meditar, porque se a meditação estava a ajudar a reprogramar o cérebro de uma ansiosa como eu, então não havia razão para não ajudar todos os outros. 

“Ah não tenho dez minutos para meditar!” 
“Toda a gente tem 10 minutos por dia!”
“Entre filhos e trabalho, nem me consigo coçar!”
“Tens prisão de ventre? Se sim, passas mais de dez minutos sentada. Aproveita-os a meditar!”
“Já meditaste hoje? Já meditaste??? JÁ MEDITASTE?!” 

Confesso que as minhas tácticas de marketing são talvez demasiado agressivas e devia utilizar todo aquela consciência adquirida na meditação para não obrigar meio mundo a ser como eu. Por outro lado, quem tem dúvidas se necessita de relaxar, eu consigo elevar os seus níveis de stress ao ponto de toda a gente precisar de, pelo menos, dez minutos longe de mim. E sabem o que podem aproveitar para fazer nesses dez minutos? Meditar!!

Ainda hoje me sento em frente ao computador, de auriculares nos ouvidos e a primeira tarefa que me obrigo a completar é meditar. Não é fácil abstrair-me do barulho. O lá de fora já aprendi a lidar com ele, o de cá de dentro é mais complicado, talvez porque o objectivo não seja retê-lo, mas aceitá-lo para que se liberte. Acredito que com o tempo a meditação vai deixar de ser uma tarefa a cumprir e hão-de ser muitos mais os dias em que me sento feliz por investir estes minutos que se traduzem em mais qualidade de vida. Até se tornar um hábito e conseguir vivê-lo com naturalidade há toda uma aprendizagem. Para quem como eu sempre se congratulou em ser capaz de realizar várias tarefas ao mesmo tempo, meditar é um grande desafio. Contar os minutos até que a meditação termine (ou já agora qualquer outra actividade do dia a dia), representa também que há algo a melhorar porque não estamos a viver no momento e isso é meio caminho para uma vida mais ansiosa e menos feliz. E se, como eu, verificarem que em vez de estarem a meditar vinte minutos por dia estão a aproveitar esses momentos para fazer a lista das compras do mês de cabeça, não há problema. Inspirem fundo e comecem de novo. 


Vídeo retirado do site kottke.org


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terça-feira, 18 de outubro de 2016

Diz-me que robot de cozinha tens, dir-te-ei quem és... e uns hambúrgueres de beterraba.


Antes de mais, esta publicação não é patrocinada. Agora que já esclarecemos isso, podemos continuar.


Eu sou a feliz proprietária de uma Yammi 2, o robot de cozinha lançado pelo Continente para concorrer com outros que já existiam no mercado. No ano passado aproveitei uma campanha para adquirir a Yammi 1 por um preço bastante simpático, após a minha Kenwood the 300 mil peças ter dado o berro para aí dois meses depois de terminada a garantia. Recentemente o Continente lançou outra campanha onde podia trocar a primeira Yammi pela segunda e, embora não estivesse insatisfeita, percebi que a troca seria sempre vantajosa. Então arrisquei e veio esta senhora cá para casa. Sou um bocado preguiçosa para ler receitas e segui-las até ao fim, para verificar se tenho todos os ingredientes antes de começar a cozinhar, etc, etc. O costume. É essa uma das principais razões porque não utilizo o livro de receitas base como deve ser, tirando todo o partido do manual como qualquer ser com dois dedos de testa. Em vez disso vou seguindo a minha intuição e experimentando as potencialidades da máquina de acordo com a receita que me apetece experimentar no momento. Às vezes corre melhor, outras vezes corre pior. 

Não tenho nada contra quem se baseia nos livros e demora algum tempo a libertar-se deles, experimentando outro tipo de receitas. Na minha opinião os robots de cozinha - aliás, quaisquer utensílios de culinária - servem para nos ajudar, não são muletas ou sinónimos de preguiça, como já ouvi dizer. Por exemplo, este tipo de robots são óptimos para  cozinhar de origem o que de outra maneira compraríamos processados. Eu adoro preparar molho de tomate com os que compro orgânicos no mercado plantados pelo agricultor que já conheço, sabendo que o dinheiro dessa venda será reinvestido numa próxima colheita. Adoro preparar leites vegetais - embora, admito, tenho pouca paciência para os "mugir" - e bolinhas energéticas, em vez de comprar bolachas de pacote ou barras ultra-processadas. Se formos a ver bem comer é um acto político, e cada escolha que fazemos, desde a escolha dos ingredientes e a quem os compramos até à maneira como os preparamos, tem uma função não apenas no nosso organismo mas no leque de relações em que nos movemos. Parece-me bastante interessante que vivamos numa época em que isto nos é acessível e possamos ser cidadãos activos também nesta medida. 

Assim algumas das próximas receitas virão apresentadas na versão tradicional e versão Yammi 2. Não é meu objectivo convencer ninguém a comprar este ou aquele robot de cozinha, mas sim a ajudar quem já tem um a adaptar as receitas ao universo Yammi, que nem sempre é tão fácil e intuitivo como ligar o forno e refogar uns legumes. Ainda não há um espólio decente de receitas dos utilizadores que componha as publicadas pela marca no seu site, por isso vou dar também o meu pequeno contributo, começando por estes deliciosos e saudáveis hambúrgueres de beterraba e feijão branco.


Hambúrgueres de beterraba e feijão branco


receita adaptada de Presunto Vegetariano

~ Ingredientes ~

2 beterrabas descascadas
1 cebola grande
4 dentes de alho
360g de feijão branco cozido
2 colheres de sopa de azeite
sal 
pimenta
6 colheres de sopa de farinha Maizena (amido de milho ou em alternativa farinha de araruta)
40g de salsa picada 


Preparação tradicional


Ralar as beterrabas, picar a cebola e o alho. Colocar um fio de azeite numa frigideira e refogar estes ingredientes alguns minutos. Adicionar o feijão cozido, depois de previamente esmagado grosseiramente com um garfo. Temperar com sal e pimenta e deixar cozinhar mais um pouco. Desligar o forno e misturar com a salsa picada e o amido de milho. Levar ao frigorífico até que a massa fique mais rija. Adicionar mais amido de milho se for necessário, formar hambúrgueres com as mãos e fritar numa frigideira anti-aderente. Se não for para comer imediatamente, os hambúrgueres podem ser congelados antes de fritar. Na hora de consumir não necessitam de ser descongelados, podendo ser levados directamente à frigideira.


Preparação Yammi 2

Ligar a Yammi 2. Carregar no botão PESAR. Colocar no copo as beterrabas cortadas em quartos até perfazer 360g. Carregar no botão TRITURAR duas vezes, fazendo dois ciclos na vel. 7/20s. Retirar a beterraba do copo e reservar. PESAR 235g de cebola descascada e adicionar 4 dentes de alho. TRITURAR 5 segundos. Adicionar o feijão, o azeite o sal e a pimenta. PROGRAMAR vel. 4/20s e adicionar a beterraba reservada. PROGRAMAR vel. 3/2m/120º. Adicionar 6 colheres de sopa de amido de milho e PROGRAMAR vel. 2/40s. Adicionar 40g de salsa picada e levar ao frigorífico até que a massa fique mais rija. Adicionar mais amido de milho se for necessário, formar hambúrgueres com as mãos e fritar numa frigideira anti-aderente. Se não for para comer imediatamente, os hambúrgueres podem ser congelados antes de fritar. Na hora de consumir não necessitam de ser descongelados, podendo ser levados directamente à frigideira.
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quarta-feira, 12 de outubro de 2016

Hoje não há receita (3).


Quanto a vocês não sei, mas setembro cheira-me muito mais a ano novo do que janeiro. Eu sei que já vamos em outubro - não sou estúpida... - mas este ano o outono entrou tão quente nas nossas vidas que mal deu para sairmos do verão e entrarmos num clima mais ameno com direito às tradicionais trovoadas e chuvas. Agora sim. Hoje parece que finalmente nos vamos despedir de um dos verões mais quentes e dramáticos da minha vida, o qual me fartei de amaldiçoar desejando que chovesse a potes, mas sem sucesso. Aparentemente ainda não controlo a metereologia e, como tal, vi-me obrigada a fingir entusiasmo pelas temperaturas fora da média e os mergulhos de quem este ano foi à praia tirar selfies na areia. Entretanto lá pedi com tanta força que o calor passou e o outono está aí. Sempre me disseram que se desejasse algo ardentemente, isso concretizar-se-ia e a passagem das estações do ano é a prova disso. Portanto agora que estamos oficialmente no outono e que o facebook se vai inundar de conhecidos a queixar-se da humidade no cabelo, no calçado e no espírito, eu preparo-me para mergulhar numa das minha estações favoritas.

Gosto muito desta altura do ano. As cores são fantásticas. As vitrines enchem-se de cadernos prontos a ser desfolhados e de lápis acabados de afiar. Lembro-me sempre do filme "You've Got Mail" quando Tom Hanks faz um elogio a Nova Iorque no outono:

"Don't you love New York in the fall? It makes me wanna buy school supplies. I would send you a bouquet of newly sharpened pencils if I knew your name and address."

E depois vemos a Meg caminhar pelas ruas da cidade americana, aproveitando cada minuto, respirando o ar fresco, embrulhada no seu cachecol ao som dos Cranberries. E sabemos que é uma altura de renovação e de encontros felizes. 

Acho que Lisboa merecia o mesmo elogio. Nem tinha de ser meu, podia vir de qualquer pessoa que se desloque pela capital nos dias que correm e que consiga abstrair-se das obras e das manifestações. Alguém que consiga ver o lado bom da cidade, apesar das suas idiossincrasias, como nos esforçamos por fazer em relação a tudo na vida. É uma questão de atitude! Assim opto por passear na Avenida da Liberdade e olhar para as folhas em tons amarelos e laranja caídas no chão sem ousar pensar nas cheias que espreitam devido à falta de cuidado com este problema recorrente. Oiço a chuva a cair lá fora e nem me lembro do estado psicótico em que os condutores ficam ao avistar as primeiras pingas (pessoal, é água, não é lava!!). Idealizo que os transportes públicos funcionam bem e não que estão apinhados de potenciais agressores de guarda chuva em riste. As pessoas que não sabem circular de guarda chuva na mão são as minhas némesis. Para consulta futura, o guarda chuva não é para carregar espetado nem para cima nem para trás nem em direcção à vista de ninguém. É para baixo!! Deixo o aviso todos os anos, porém raramente alguém o escuta e o coloca em prática.

O outono é também a época do ano que nos obriga a arrumar. Arrumamos os sapatos, as roupas leves, o mobiliário de verão da varanda. Sabemos que é assim que tem de ser, caso contrário a estação engole-nos. Temos de nos adaptar: às manhãs frescas e às tardes ainda solarengas. Aos novos horários e rotinas. Às abóboras, às batatas doces, às sopas e aos chás. E às receitas que virão com estes ingredientes.

O final de outubro marca sempre uma altura de viragem para mim. Tem sido assim nos últimos anos, precisamente no mesmo dia. Velhos empregos, novos empregos, oportunidades, portas que se fecham e abrem, uma grande corrente de ar. Acaba por ser um pouco inevitável, quase como as estações do ano que eu gostaria de controlar e não controlo ao contrário de tantas outras coisas às quais ainda posso deitar a mão. Agora que me apercebo da tendência e não quero ser engolida pela corrente do tempo, resta saber como farei para o acompanhar. 



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sexta-feira, 30 de setembro de 2016

Smile and wave, boys.


Acho que não é surpresa para ninguém que leia o que escrevo que as últimas semanas têm sido particularmente complicadas por aqui. Às vezes quando o equilíbrio já é precário, se algum peso extra é adicionado aos já bambos pratos da balança, a queda parece mais acentuada. O valor que  conferimos aos percalços é extrapolado e a nossa capacidade de reagir fica reduzida a pó.

Com a quantidade de peso acumulada nos meus pratos, recentemente senti esse desequilíbrio de forma mais acentuada. E aí o meu instinto de lutar ou fugir fica ainda mais acentuado e consome-me. Tudo aquilo que eu sou, que posso trazer de bom a este mundo e a que possa hipoteticamente agarrar -me fica comprometido. E durante algum tempo perco o chão, mas também toda e qualquer energia para conseguir reencontrá-lo e reconstruí-lo. Existem algumas maneiras de combater esta tendência e necessito de me descolar de toda a inércia para voltar ao início sem sentir que fui novamente derrotada. É uma luta contra o meu pior inimigo, eu mesma, e o primeiro passo é o que mais custa a dar.

Eu acredito na capacidade que o corpo e a mente têm de se auto-regenerar, desde que sejamos capazes de lhe darmos as ferramentas para que o façam. Uma boa noite de sono, sem horas extra que comprometam o resultado final. Exercício físico para dispersar a energia mal canalizada. Alguns minutos de meditação por dia para trazer à superfície o que teimamos em reter em tensão. Uma alimentação adequada, nutritiva e rica. Se possível adicionar uma dose generosa de festas num gatinho, ouvindo o ronrom de quem nos ama incondicionalmente. As gargalhadas do meu sobrinho mais velho. O sorriso maroto do meu sobrinho mais novo. A felicidade das minhas irmãs e do meu irmão. O saber que eles são a minha família. Focar-me nas benções que tenho e não no caminho que ainda me falta percorrer. Não comparar o meu percurso com o de terceiros, mas celebrar as conquistas alheias enquanto trabalho para as minhas. Não me deixar ludibriar por vidas aparentemente perfeitas em comparação com a minha, na qual encontro tantos problemas e tão pouca energia para os combater. 

Segue uma receita saborosa de um livro que me foi oferecido por uma menina que também enriquece muito a minha vida. O mais engraçado é que recentemente nos encontrámos e tivemos um dos diálogos mais insólitos de sempre, em que eu jurava a pés juntos que o livro de onde retirei esta receita me foi oferecido por outra pessoa, que não aquela que estava à minha frente e me garantia que tinha sido ela. Tinha esta receita guardada nos rascunhos do blogue há umas semanas e não vejo altura melhor para publicá-la do que agora, depois de feita a devida apresentação. Só para verem que no meio de tanta coisa negativa, cinzenta e rotineira, há sempre algo que nos rouba uma gargalhada, seja uma conversa tola ou uma grande nódoa de chocolate na camisa, cortesia dos melhores gelados de Lisboa.

Smile and wave, boys. Smile and wave.



Hambúrgueres de feijão preto 

receita adaptada do livro Veganomicon, p. 98

2 cups de feijão preto cozido 
1/2 cup de farinha de glutén (ou farinha de grão de bico)
1/2 cup de broa ralada aromatizada (ou pão ralado)
1/4 de cebola grande
2 dentes de alho
folhas e caules de coentros
cominhos em pó
sal
1 colher de chá de pimenta moída açoreana (ou pasta de pimentão)
mistura de chili doce da Tiger (ou paprika)
2 colheres de sopa de azeite


No processador de alimentos picar bem os coentros (folhas e caules), cebola e os dentes de alho. Retirar do processador e refogar cerca de 5m numa frigideira com uma colher de sopa de azeite. Quem tiver Yammi como eu (ou Bimby ou outra maquineta que tal) pode programar 3m30s na temperatura 100º na velocidade 1. Quanto terminar, processar o feijão mas de maneira a que não fique totalmente desfeito. Adicionar os restantes ingredientes e envolver até que estejam uniformizados. Aquecer o restante azeite numa frigideira e moldar 6 hambúrgueres com as mãos, fritando-os de ambos os lados até que estejam douradinhos. Acompanhei com tagliatelli de arroz preto salteado com alho francês e uma tira de alga wakame. 
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